Avsnitt
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Interromper a programação prevista para falar do historiador Carlo Ginzburg por ocasião da sua morte, não é um gesto circunstancial, mas uma exigência da própria prática da história. Neste episódio Rui Tavares traz-nos um pouco da biografia de Ginzburg, evoca como o seu pensamento moldou a forma como olhamos para o passado e, de certo modo, reconhece a sua própria filiação intelectual.
Num século marcado por grandes sínteses e ambições de totalidade, a proposta de Carlo Ginzburg foi a de reduzir a escala. Não para diminuir a história, mas para a tornar mais densa. Na obra “O Queijo e os Vermes”, em vez de vastos panoramas de uma época, mostra-nos um moleiro; em vez de procurar no pormenor a confirmação da norma, endereça o atípico como forma de questionar as certezas acerca do passado; em vez de usar os documentos do passado como provas, trata o arquivo como um terreno vivo, quase ao modo antropológico.
Interromper para falar de Ginzburg é, por isso, também lembrar que fazer história implica saber parar — e reconhecer quem nos ensinou a ver no ínfimo uma outra forma de grandeza.
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Na encíclica Magnifica Humanitas, de maio de 2026, o Papa Leão XIV apresenta a inteligência artificial como uma questão existencial, comparável a outros grandes desafios da humanidade, e coloca-a perante um dilema: entre uma nova Babel — marcada pela perda de sentido humano — e a construção de uma comunidade assente na responsabilidade partilhada.
A partir deste documento, Rui Tavares retoma a reflexão sobre a história do futuro, lendo-o nos sinais do presente, como faria um historiador.
Na encíclica Leão XIV defende a cooperação, critica o nacionalismo e a ausência de regulação global, convocando referências de Santo Agostinho a Hannah Arendt e Tolkien. Mas o episódio detém-se também no que falta: a ausência de Pentecostes, num tempo em que a tecnologia começa a ultrapassar barreiras linguísticas.
Entre história, tecnologia e ética, este episódio propõe escutar o presente como um arquivo vivo, procurando nele os sinais do futuro. Porque, bem vistas as coisas, e como William Gibson sublinha, “o futuro já está aqui, só não está bem distribuído”.
Nota: Todas as músicas utilizadas neste episódio foram geradas por IA.
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Saknas det avsnitt?
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O ponto de partida é o 10 de Junho: uma data que parece fixa, repetida, ano após ano, mas cuja própria história revela o contrário. Ao longo do tempo, este dia mudou de significado, de regime, de discurso, espelhando cada momento do país. Um exemplo de como aquilo que julgamos estável é, afinal, profundamente afectado pela mudança.
A partir deste dia, Rui Tavares convida-nos a pensar a História como a disciplina que estuda a mudança no tempo, na definição de Marc Bloch, e a recuperar Camões como guia inesperado para refletir sobre ela.
No seu verso — “não se muda já como soía” — esconde-se uma ideia poderosa: há momentos em que não são apenas as coisas que mudam… é a própria natureza da mudança que se transforma.
E então, será possível, a partir dessas transformações, fazer uma “história do futuro”?
Este episódio abre uma série de episódios que serão um convite a pensar a filosofia da história, a olhar o presente com mais atenção e a reconhecer os sinais de um tempo em que múltiplas mudanças, tecnológicas, sociais, climáticas: acontecem ao mesmo tempo e a um ritmo sem precedentes.
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A propósito do Dia da Criança, celebrado esta semana, Rui Tavares parte de uma pergunta do seu filho, simples e, ao mesmo tempo, vertiginosa: “qual é a história de todas as histórias?” Neste episódio especial, regressamos à infância, às infâncias e percorremos milénios.
Ao longo deste envolvente episódio, atravessamos diferentes histórias que parecem distantes no tempo e no espaço, mas que se unem por três elementos essenciais: uma criança, uma árvore e um bicho. Neles se condensam as experiências fundadoras da infância — o espanto, a descoberta, a relação com o mundo vivo.
De Ulisses a Santo Agostinho, de Anne Frank às memórias pessoais, o episódio revela como essas imagens primeiras persistem e reaparecem, moldando a forma como lemos, lembramos e compreendemos o mundo.
Uma poética reflexão sobre a continuidade da infância dentro de nós. Talvez todas as histórias comecem assim: com uma criança a olhar o mundo e a tentar, pela primeira vez, dar-lhe sentido.
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Cumprem-se hoje 100 anos sobre o golpe de Estado que mergulhou Portugal na mais longa ditadura da Europa Ocidental. Este poderia ser um episódio sobre o 28 de maio de 1926, mas Rui Tavares rebela-se e leva-nos antes a um outro 28 de maio, o de 1911, data das primeiras eleições da República portuguesa e o dia em que, pela primeira vez, o direito de voto foi exercido por uma mulher em Portugal: Carolina Beatriz Ângelo.
Médica, viúva, mãe, e pioneira, Carolina Beatriz desafiou o seu tempo e abriu caminho na luta pela igualdade entre homens e mulheres ao encontrar uma brecha na lei e reclamar o direito ao voto.
Seguimos os seus passos nesse dia, numa assembleia de voto em Arroios, em Lisboa; revisitamos os acontecimentos que o antecederam; e percorremos o seu notável trajecto biográfico. Cruzamo-nos também com as mulheres que, com Carolina, fizeram emergir o feminismo em Portugal.
Nos 15 anos que separam estes dois 28 de maio, joga-se mais do que uma mudança de regime. Joga-se a possibilidade de uma cidadania plena — que, por um instante, pareceu ao alcance das mãos.
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Entre o caos, o medo e a sobrevivência, este episódio transporta-nos para o coração do terramoto de 1755 em Lisboa através de um relato raro e intensamente humano de Thomas Chase, sobrevivente da catástrofe. Rui Tavares retoma o seu Pequeno Livro do Grande Terramoto e traz a história de um jovem estrangeiro preso num cenário apocalíptico.
Das colinas que então eram campos abertos aos acampamentos improvisados cheios de refugiados, Chase leva-nos por uma cidade devastada, marcada por ruínas, fogo indomável, tremores e pânico coletivo. O relato cru de Thomas — ferido, perdido e rodeado por desconhecidos — abre uma janela única sobre o desespero, a solidariedade e o estranhamento entre comunidades num momento limite.
Com base em cartas e testemunhos da época, esta descrição vívida lembra como, mesmo nas maiores catástrofes, persistem gestos de humanidade.
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Partimos de uma notícia atual: um navio ancorado ao largo de Cabo Verde, para viajar quase dois séculos até outra embarcação, parada no mesmo lugar, em maio de 1833. A bordo segue uma figura fascinante e ainda hoje surpreendentemente pouco conhecida: Flora Tristan.
Jovem, franco‑peruana, com uma vida marcada por perdas, violência e exclusão. Separada num tempo em que as mulheres tinham poucos direitos, impedida de ver os próprios filhos e empurrada para a margem da sociedade, transforma essa experiência num motor de pensamento e ação, Flora embarca numa viagem decisiva rumo ao Peru, em busca de reconhecimento, herança e, sobretudo, de um lugar no mundo.
Mais do que uma viajante, Flora Tristan torna-se uma voz pioneira do feminismo e uma das primeiras pensadoras do movimento operário. Defende a emancipação das mulheres e propõe algo revolucionário para o seu tempo: a união internacional dos trabalhadores, organizada de forma solidária e autónoma. A sua ideia antecipa o sindicalismo moderno e inspira gerações posteriores, muitas vezes sem o devido reconhecimento.
Neste episódio, Rui Tavares mergulha na força da sua escrita, na coragem das suas ideias e no impacto duradouro do seu pensamento. Uma história de resistência, lucidez e transformação que continua a ecoar nos debates de hoje.
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Em dezembro de 1943, em plena guerra, Arturo Toscanini dirige em Nova Iorque o Hino das Nações, um gesto de resistência, arte e esperança num mundo marcado pelo fascismo, pela censura e pelo medo. Este episódio de “Tempo ao Tempo” acompanha a presença da música como elemento de ação, união e esperança política. Segue também a extraordinária viagem da Nona Sinfonia de Beethoven, da sala de concerto à arena política, da utopia cosmopolita de Schiller à consagração como Hino da Europa, passando por Schuman, Monnet, e pela pergunta que continua a ecoar: faremos nós a Europa, ou faremos nós a guerra?
Da Segunda Guerra Mundial ao Dia da Europa, Rui Tavares lembra-nos que os símbolos não nascem por acaso: nascem de crises, de escolhas difíceis e de uma vontade obstinada de não repetir o desastre. E talvez seja por isso que a Ode à Alegria ainda nos comove, porque fala de uma fraternidade possível num mundo tantas vezes dividido.
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Vem aí o primeiro podcast do Expresso dedicado à Filosofia. O Príncipio da Inquietação é um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa.
Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas.
Pode ouvir o novo podcast em Expresso.pt ou em qualquer aplicação de podcasts, onde consegue subscrevê-lo, comentar e enviar sugestões.
Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma nova inquietação. A primeira é já a 7 de maio.
A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.See omnystudio.com/listener for privacy information.
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O ponto de partida deste episódio é a “Bofetada de Anagni”, em 1303, quando o Papa Bonifácio VIII foi humilhado por emissários do rei de França e vai desaguar no deslocamento do papado para Avignon, onde durante décadas os pontífices viveram sob forte influência francesa. Esse período culmina no Grande Cisma do Ocidente, iniciado em 1378, com a eleição simultânea de papas rivais em Roma e em Avignon, apoiados por diferentes potências europeias.
A tentativa de resolver o cisma através de concílios acabou por agravá‑lo, chegando a haver três papas em simultâneo. Rui Tavares leva-nos até este tempo fascinante em que a autoridade da Santa Sé era soberana na idade média católica. Embora o Papa já não desempenhe o papel de árbitro do que hoje chamaríamos sistema internacional, as divisões — ou “cismas” — continuam a marcar a política global, seja entre Estados, alianças ou dentro das próprias comunidades religiosas.
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Desde há dois mil anos a nossa imaginação viaja até à Lua. No universo da imaginação literária, Luciano de Samósata narrou, no século II da era cristã, essa viagem tão absurda quanto brilhante: um barco levado por um tufão, rumo a uma Lua habitada, em guerra com o Sol, povoada por criaturas absurdas e maravilhosamente inventadas. Neste episódio, Rui Tavares revela-nos o escritor sírio Luciano de Samósata, nascido no século II, falante de aramaico e que escreveu em grego, e como, entre ficção, filosofia e sátira, abriu caminho para outras formas de pensar o mundo e até para a verdadeira conquista da Lua.
Do antigo sonho de voar ao fascínio moderno pelo espaço, este episódio percorre uma linha surpreendente da presença da Lua entre literatura, ciência e utopia, e que se estende do século II até a exploração espacial que assistimos na semana passada. Uma história sobre o poder de imaginar o impossível e sobre como, às vezes, a ficção chega primeiro do que a técnica.
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O que faz Rui Tavares quando não tem tempo para dar ao tempo? Convida-nos a acompanhá-lo nos trabalhos de casa para uma das aulas de Grego Antigo que frequenta com o Professor António Castro Caeiro.
O foco central é um exercício de tradução do Fédon, o diálogo onde Platão narra as últimas horas de Sócrates, depois de condenado à morte, antes de beber a cicuta. Através de Platão – que não esteve com o filósofo nessas derradeiras horas – Sócrates, no diálogo com Simias, disserta sobre a ideia de que aprender não é adquirir algo novo, mas sim recordar conhecimentos que a alma já possuía antes de habitar o corpo. Entre a sentença e a execução, discute a morte como a separação final entre a alma e o corpo, defendendo que filosofar é, em última análise, "aprender a morrer".
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Quando e como começou, afinal, a ditadura a revelar-se?
Na senda dos episódios anteriores sobre a aproximação ao 28 de maio de 1926, Rui Tavares elege os sinais que anunciam o colapso da Primeira República, o momento em que o golpe deixou de parecer um episódio passageiro e em que a ditadura começou a revelar a sua verdadeira natureza opressiva. E como, perante isso, se desencadeou a resistência que lhe faria frente durante décadas.
Da Semana Antifascista de março de 1926, às revoltas do Porto e de Lisboa em fevereiro de 1927, passando pela formação da Liga de Paris, percorremos a construção da resistência à ditadura — dentro e fora do país, entre exílio, prisão e propaganda internacional. Revisitamos importantes figuras como Jaime Cortesão, Raul Proença, Afonso Costa, Mário Castelhano, Elina Guimarães e Hélder Ribeiro, entre muitos outros, e percebemos como se formaram redes de oposição que enfrentaram uma repressão cada vez mais violenta. Entre esperança, desilusão e coragem, este é um episódio sobre a história da longa resistência a uma muito longa ditadura.
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Neste episódio Rui Tavares volta à Persia e recua à Grécia antiga para falar de um livro que foi, durante séculos, uma referência incontornável na reflexão sobre poder, educação e liderança: a Ciropédia, de Xenofonte. Escrita no século IV a.C., esta obra apresenta a educação do rei persa Ciro, e transforma a figura histórica num modelo de governante justo, inteligente e pedagógico. Embora hoje seja pouco lida, a sua influência foi enorme: marcou leitores como Júlio César, Maquiavel, Montesquieu, Rousseau, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson.
A Ciropédia não é apenas um relato sobre a Pérsia antiga. É também uma meditação sobre o que significa governar, aprender a liderar e formar o carácter. Xenofonte — ateniense, discípulo de Sócrates e autor de textos célebres como a Anábase — usa a infância e a formação de Ciro para pensar a relação entre disciplina, observação, respeito pelos outros e autoridade.
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Neste episódio, regressamos a março de 1926, quando intelectuais da Seara Nova, os “searistas” Júlio Proença, António Sérgio, Jaime Cortesão, anarquistas do jornal A Batalha e republicanos radicais organizaram a Semana Antifascista, uma semana de comícios e conferências alertando para a ameaça dos fascismos que chegam da Europa com Mussolini ou Primo de Revera.
Mas se estes activistas viram o fascismo chegar, porque falharam? A resposta será confusão política. Como Rui Tavares nos tem vindo a contar: a ditadura já era banal: golpes, e golpes dentro dos golpes eram impunes, as esquerdas dividiam-se e a tecnocracia seduzia os mais crédulos.
Não basta clarividência quando o inimigo se irrompe na confusão. De Lisboa a Moçambique, a convergência antifascista parecia invencível. Mas o tempo deu 47 anos, 10 meses e 3 dias de obscuridão.
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Filho de comerciantes de cortiça, Mendes Cabeçadas trocou Faro por Lisboa, liceu por quartel. Enquanto capitão‑tenente no Adamastor, Cabeçadas bombardeou o Palácio das Necessidades para implantar a República. Averso ao caciquismo de Afonso Costa, conspirou contra a instabilidade. Quando infiltrações monárquicas e integralistas começaram a ameaçar o espírito republicano que queria salvar, reagiu com um golpe dentro do golpe: afastou Gomes da Costa e governou 17 dias, com Salazar como ministro das Finanças por escassas horas.
Já em plena ditadura, Cabeçadas nutre crescente descrença por Salazar e conspira contra ele em 1946–47 (sem sucesso), sendo vigiado pela PIDE quase até à morte. Morre em junho de 1965 – o homem que ajudou a criar o monstro que quis desfazer.See omnystudio.com/listener for privacy information.
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O Expresso apresenta “SIS: 40 anos de segredos”, um podcast documental onde se conta a história do Serviço de Informações de Segurança. Pela voz de quem o desenhou, instalou e dirigiu, é explicada de forma inédita como funcionam e foram evoluindo as vertentes da formação e da fiscalização.
Siga esta investigação jornalística de Celso Paiva Sol, contada em seis episódios. Novo episódio todas as terças-feiras já a partir de 24 de março.
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Quase meio século depois da Revolução Islâmica ter instaurado no Irão um poder teocrático tão duradouro quanto a ditadura em Portugal, o ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel derrubou o regime dos aiatolas e vem abrir uma nova frente de guerra no Médio Oriente. Enquanto mísseis e drones atingem Teerão, paira a pergunta sobre esta República Islâmica que derrubou uma monarquia em nome da fé: é o Irão apenas um regime dos aiatolas, ou é herdeiro de uma civilização persa milenar, ponte histórica entre Europa e Ásia, marcada por encontros sucessivos com o mundo grego, romano e europeu?
A partir desta atualidade Rui Tavares recua ao século XVIII para revisitar uma embaixada persa enviada a Luís XIV e a reação fascinada e perplexa da corte francesa diante daqueles “exóticos” orientais. Deste choque de culturas nasceu o livro Cartas Persas, onde Montesquieu inverte o ponto de vista exótico e imagina como seriam os persas a descrever os europeus. Em Cartas Persas, Montesquieu inaugura o jogo de estranhamento que está na origem do Iluminismo e da crítica às certezas religiosas e políticas da Europa.
Este episódio de Tempo ao Tempo propõe ler o Irão de hoje à luz dessa longa história de encontros, mal‑entendidos e espelhos: talvez, sugere Rui Tavares, não se possa compreender o que significa ser europeu sem ser, pelo menos um pouco, persa.
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No final de fevereiro completaram‑se quatro anos do início da guerra na Ucrânia. Contudo, se contarmos o seu início em 2014, com a anexação da Crimeia e a guerra no Donbas, e não apenas a invasão em larga escala de 2022, este é o conflito europeu mais longo desde a Guerra dos Trinta Anos.
A partir desta constatação, Rui Tavares recua quatro séculos para usar a Guerra dos Trinta Anos e a Guerra da Sucessão Espanhola para ler as guerras europeias não como eventos isolados, mas como “guerras civis” dentro de uma mesma república europeia de Estados. Seguindo Voltaire e o seu “Siècle de Louis XIV”, o episódio explora esta ideia de Europa como república de facto: um espaço político partilhado por monarquias, repúblicas e Estados mistos, unidos por um fundo comum de direito público, práticas diplomáticas e interesses que tornam as guerras menos conquistas imperiais e mais mecanismos de contenção de hegemonias excessivas. Será que este conflito se inscreve neste padrão?
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Rui Tavares regressa ao Terramoto de Lisboa de 1755, reconhecido como primeira catástrofe moderna. O epíteto não lhe cabe pela dimensão da catástrofe, mas pela resposta política organizada no seu rescaldo: inquérito sistemático ao reino, códigos de construção inovadores e reconstrução planeada em nova escala. Este pensamento organizado perante a destruição e a necessidade de reconstrução no século XVIII, inaugurou, segundo o sociólogo Enrico Quantarelli, práticas de prevenção que hoje reconhecemos como modernas.
Se tais raízes existem, cabe reflectir por que as ignoramos – em vez de as actualizar para o presente. Como usamos o conhecimento de catástrofes passadas e recentes? Transformamo-las em acções concretas ou em fatalismos comparativos?
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