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  • A cada edição, o país sede de uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo promete ter o menor impacto ambiental da história – mas, na prática, os objetivos iniciais jamais são cumpridos e o balanço final de emissões não é confiável. Paris 2024 não deve ser diferente, garante o pesquisador alemão Martin Müller, do Instituto de Geografia e Sustentabilidade da Universidade de Lausanne, na Suíça, cidade que abriga o Comitê Olímpico Internacional (COI).

    Lúcia Müzell, da RFI em Paris

    Müller dirige um estudo comparativo de megaeventos esportivos desde 1990 e traz um olhar cético sobre o discurso ambiental dos organizadores. Os responsáveis dos Jogos de Paris chegaram a prometer realizar a primeira Olimpíada com “contribuição positiva” para o planeta. Depois, evocaram brevemente a meta de as competições serem “neutras em emissões carbono”, graças a compensações com projetos de captura de CO₂ e apoio à sustentabilidade. Por fim, abandonaram o uso dessa expressão, uma admissão de que é impossível promover um evento desta magnitude sem impacto ambiental.

    “Vimos que Paris fica na média. Estas Olimpíadas não serão extremamente verdes, mas também não farão mal em relação a outras”, indica o pesquisador. “Quando falamos de ecologia, temos que observar vários aspectos e as emissões de CO₂ é um deles, para o qual o impacto das construções e da vinda de visitantes é o que mais conta. É em função desse número de pessoas esperadas que infraestruturas deverão ser construídas – e podemos constatar que Paris terá mais visitantes que a média dos últimos Jogos Olímpicos”, explica.

    A promessa da França é emitir a metade do CO₂ despejado nos Jogos de Londres em 2012 (total de 3,4 milhões de toneladas) e do Rio de Janeiro em 2016 (3,6 milhões de toneladas). Para isso, apenas 5% das infraestruturas necessárias foram construídas para o evento, com técnicas de baixo carbono, e não haverá ar condicionado na Vila Olímpica.

    Avaliações são imparciais

    Entretanto, nem as projeções, nem os balanços ambientais finais dos megaeventos esportivos são imparciais e confiáveis, assegura Martin Müller.

    “Assim que os jogos terminam, ninguém mais se interessa por isso e não há nem dinheiro para finalizar o balanço ambiental. Faltam dados precisos e transparência. A atenção da imprensa também já se volta para a próxima edição dos Jogos Olímpicos”, observa.

    “Um dos maiores problemas é que não tem uma verificação independente do balanço que é publicado, para que seja possível comparar as promessas e os resultados”, complementa ele.

    Müller e outros pesquisadores pedem a criação de um organismo independente e com recursos próprios para avaliar com isenção o impacto ambiental dos megaeventos. No caso das Olimpíadas, o próprio COI se mostra imparcial, uma vez que precisa convencer outras cidades a sediarem os jogos seguintes.

    Antigamente, quando o impacto ambiental não tinha tanta importância, a concorrência era grande entre os países. Mas hoje, diante da pressão por um evento cada vez mais responsável, está difícil encontrar quem aceite o desafio.

    “A situação é que as cidades sabem que vão emitir muito e pensam que vão poder comprar certificados para compensar essas emissões. Só que esses certificados não são eficazes para anular, de verdade, todas as emissões – e essas, sim, serão bem reais. Elas existirão, irão para a atmosfera e terão um impacto na mesma hora”, alega o professor.

    Olimpíada com menos público

    Como, então, continuar a celebrar o maior evento esportivo do mundo sem causar tantos danos ao planeta? Martin Müller toca no ponto que muita gente ainda não quer nem ouvir falar: limitar ao máximo os deslocamentos dos viajantes e das expectativas por infraestruturas impressionantes.

    “O que eu recomendo é levar os jogos para as pessoas, e não as pessoas para os jogos. Isso pode ser feito com mais fan zones, que podem levar a atmosfera dos jogos às cidades”, sugere. “E deveríamos fazer Olimpíadas só com o que já existe. Isso significa escolher cidades que já possuem o que é necessário, ou então termos mais flexibilidade e aceitarmos que não teremos as infraestruturas que estarão no topo da tecnologia”.

    Paris 2024 construiu um novo estádio, um centro aquático e a Vila Olímpica, todos com reutilização prevista após os Jogos. “O pouco que foi construído foi com muitíssimo menos emissões. Estamos falando de 30% menos CO₂ por metro quadrado”, disse Georgina Grenon, diretora ambiental do evento, em entrevista à RFI em espanhol. “Usamos novas técnicas de construção, muita madeira, cimento de baixo carbono, materiais reciclados”, citou.

    Já a questão dos transportes foi abordada do ponto de vista local, com a ampliação da rede de transporte público e das ciclovias, e nacional, com a instalação de 30 fan zones espalhadas pelo território francês. Mas o grande elefante na sala, o deslocamento internacional dos cerca de 1,9 milhão de visitantes estrangeiros esperados, ficou de fora. Mais de um terço do total de emissões de gases de efeito estufa ocorrerá por conta do transporte aéreo de atletas, delegações e espectadores.

    Segundo um relatório publicado em junho pela organização The Shifters, as emissões geradas pelos trajetos de avião para a Olimpíada de Paris comprometem o objetivo de limitar o balanço do evento a 1,58 milhão de toneladas de CO₂. A entidade, especialista em transição energética, afirma que sem diminuir a presença de público vindo do exterior, é “impossível que um evento como este seja compatível com o Acordo do Clima de Paris”.

  • A nova sequência de queimadas recordes no Pantanal, na esteira de uma seca prolongada e escassez hídrica, lançam um alerta: as ações humanas associadas às mudanças do clima aproximam os biomas brasileiros do colapso. Nos últimos anos, os cientistas têm advertido sobre o chamado ponto de não retorno da Amazônia, mas os outros ecossistemas do país também correm o risco de não conseguirem mais se regenerar.

    O desmatamento acentuado nos vizinhos Amazônia e Cerrado contribui para a seca que impacta no Pantanal. O nível do rio Paraguai, cujas cheias são cruciais para os ciclos da vida no bioma, está quase 70% mais baixo do que seria esperado para o período – e a tendência é piorar nos próximos meses. A atual crise hídrica deve ser a mais grave já registrada, alerta a organização WWF Brasil.

    Uma nota técnica da ONG em parceria com a ArcPlan, especializada em geoprocessamento de dados, verificou que as inundações de 2024 simplesmente não aconteceram. A análise dos últimos anos não deixa dúvidas: a maior área continental úmida do planeta está cada vez mais seca.

    “Isso acontece devido aos eventos e impactos sucessivos em pouco tempo, que comprometem a biodiversidade e as populações. Elas têm pouco para se recuperar de um evento extremo para o outro, e com isso comprometemos a capacidade que esse ecossistema tem de funcionar”, explica a bióloga Helga Correa, uma das autoras do estudo.

    “Um ecossistema precisa das espécies presentes na sua área, senão as plantas, os animais, perdem a capacidade de continuarem existindo como a gente conhece. Este é o ponto de não retorno: ele deixa de ser o bioma tal como a gente conhece”, alerta.

    Este ano, os incêndios no Pantanal começaram mais cedo e já consomem a região há cem dias, sem previsão de serem controlados, em meio a condições climáticas adversas. A estiagem e o aumento das temperaturas criam condições mais propensas ao fogo.

    Uso do fogo pela agropecuária

    O governo federal garante que 85% dos focos de incêndio ocorrem em terras privadas, o que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, classificou como “uma das piores situações da história” do Pantanal. O bioma é habituado às queimadas, que fazem parte do sistema natural da região há milênios. O fogo pode ser provocado por fenômenos climáticos como raios em contato com matéria orgânica inflamável durante a estação seca que vai de maio a outubro.

    Entretanto, o abuso do fogo como técnica de manejo agrícola tem feito as chamas se tornarem incontroláveis. Um relatório do MapBiomas indica que 9% da vegetação do bioma pode ter sido degradada pelas queimadas dos últimos cinco anos.

    “O Cerrado, o Pantanal e até o Pampa são dominados por uma vegetação mais graminha, arbustiva, que têm às vezes até uma dependência do fogo, e uma adaptação a ele. Entretanto, as atividades humanas têm mudado o regime do fogo e a forma como ele acontece”, salienta Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do MapBiomas Fogo.

    “O fator climático contribui e muito área a extensão da área queimada. Para que os incêndios não fiquem cada vez maiores, a gente precisa reduzir o uso do fogo nas práticas agropecuárias”, adverte a diretora.

    O uso da terra para a agricultura também está comprometendo a vegetação das margens dos rios. Uma das consequências é que as enchentes se espalham menos e têm duração mais curta – o que gera ainda mais estiagem nos meses seguintes.

    “A água que tem no Pantanal não é só explicada pela quantidade de chuva que cai lá. Tem uma contribuição, para os seus rios, da faixa que está localizada no planalto que circunda o Pantanal. As cabeceiras da bacia do Alto Paraguai já ficam no bioma Cerrado”, afirma Helga Correa. “Na hora em que a gente modifica a cobertura e o uso desse planalto, a gente compromete a quantidade de água que vai para o Pantanal e que consegue permanecer nele, penetrando no solo e abastecendo as nascentes”,

    A extensão das queimadas

    Em junho, o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul registraram a maior média de área queimada desde 2012, conforme levantamento por satélites da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pelo menos 411 mil hectares viraram fumaça – ou seja, 51 vezes mais do que a média histórica para o período.

    Além dos danos à biodiversidade singular da região, as queimadas também contaminam as águas dos rios com cinzas, que matam peixes e poluem o sistema hídrico das comunidades locais.

    A tragédia ambiental se repete quatro anos após 30% do Pantanal ter sido atingido pelos mais devastadores incêndios já registrados no bioma e que mataram 17 milhões de animais vertebrados, conforme estimativas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

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  • A poucos dias do primeiro turno das eleições antecipadas na França, organizações de defesa do meio ambiente e cientistas alertam sobre os riscos de um governo de extrema direita para o futuro da política ambiental do país, a segunda maior economia da União Europeia. O partido Reunião Nacional se opõe ao que chama de “ecologia punitiva”, defende o enfraquecimento do Pacto Verde europeu e de uma série de medidas que colocam a França no caminho da descarbonização completa até 2050.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Para aumentar a sua aceitação popular, a legenda adaptou o discurso sobre o clima: deixou de lado as tiradas negacionistas e passou a evocar o tema para reforçar as posições nacionalistas que traçaram a sua história. A sigla de extrema direita compreendeu que, no contexto francês, não poderia mais rejeitar a crise climática se quisesse chegar ao poder.

    “Eles adotaram uma postura mais cautelosa: reconhecem a existência da desregulação climática, mas a responsabilidade direta do homem nisso ainda não é tão clara, para eles. Então, a solução que apresentam para a questão climática vai ao encontro da argumentação central da extrema direita, pela soberania nacional”, observa o cientista político Bruno Villalba, especialista em política ambiental francesa e professor da AgroParisTech. “Eles vão pegar tudo que pode confortar a tese central do partido, que é a defesa da identidade nacional, do local. Por exemplo, eles são contra a energia eólica porque dizem que as turbinas afetam a paisagem tradicional da França”, salienta.

    O programa do partido, cotado em primeiro lugar nas pesquisas de intenções de voto nas eleições francesas, inclui um curto parágrafo sobre o assunto: “Nós desenvolveremos uma ecologia com bom senso, baseada nas realidades cientificas, protetora do nível de vida dos franceses e que garanta a nossa independência nacional”, diz o trecho, logo depois de afirmar que “as famílias e empresas francesas sofrem a cada dia com uma ecologia punitiva, através de normas que prejudicam o poder de compra e o crescimento econômico”.

    Discurso em contradição com emergência climática

    O problema é que essas medidas foram adotadas para que o país seja capaz de zerar as emissões de gases de efeito estufa nos próximos 15 anos. Especialistas advertem que o ritmo da transição deve acelerar, e não diminuir, para que este objetivo seja mesmo cumprido.

    O paleoclimatologista Jean Jouzel, um dos cientistas franceses mais respeitados do mundo, foi um dos que tomou posição sobre a situação política atual no país. Ele disse ter ficado “completamente abatido” com a dissolução da Assembleia Nacional do país e a possibilidade de o candidato do RN, Jordan Bardella, ocupar o cargo de primeiro-ministro.

    “As questões ambientais estão ausentes da campanha eleitoral, ao mesmo tempo em que somos confrontados à realidade climática, que estamos na beira do precipício”, lamentou Jouzel, ao jornal Libération.

    “Do ponto de vista da proteção do meio ambiente, é um partido relativamente negacionista, mesmo que ele não diga isso com todas as letras. Ele quer paralisar o avanço das energias renováveis”, disse Arnaud Schwartz, vice-presidente da associação ambientalista France Nature Environnement, entrevistado pela RFI.

    “Eles são favoráveis a uma agricultura industrial, voltada à exportação, ao mesmo tempo em que autorizam a importação de produtos agrícolas aqui, produzidos em condições bem piores no exterior. Ou seja, eles estão de acordo que a gente polua mais os nossos solos, que destruamos a nossa saúde – o que ao faz nenhum sentido a longo prazo”, denuncia Schwartz.

    Assim como em outros países, a extrema direita francesa também não faz questão de se dissociar dos combustíveis fósseis – responsáveis por 80% dos gases de efeito estufa que aquecem o planeta. O Reunião Nacional prega a revogação da proibição da venda de veículos novos movidos diesel e gasolina, prevista na União Europeia a partir de 2035, e o fim das zonas de baixa emissão de CO2 nas cidades.

    Desacelerar o ritmo da transição da economia

    A sigla também quer “reduzir” a pegada de carbono por meio de incentivos para as indústrias francesas retornarem ao país e ao dar “prioridade à produção nacional”. O cientista político Bruno Villalba ressalta que muitas destas promessas não são factíveis.

    “Para começar, a margem de autonomia de um primeiro-ministro em relação às diretivas e regulamentações europeias é bastante limitada. A partir do momento em que a maioria delas são adotadas, elas são aplicadas automaticamente na lei francesa – a menos que ele decida encarar as multas que a União Europeia nos enviaria”, lembra. “Mas o que ele pode, sim, fazer, é jogar com o tempo e adiar a aplicação das decisões europeias.”

    Nesta semana, as principais organizações ambientalistas francesas se reuniram em um colóquio organizado pelo site Reporterre para abordar os riscos da ascensão do partido fundado por Jean-Marie Le Pen. O diretor-geral do Greenpeace França, Jean-François Julliard, afirmou que o programa do Reunião Nacional “ignora os desafios da descarbonização”.

    “Eles não têm nenhuma compreensão desses desafios e às vezes eles negam o problema, a intensidade e a amplitude das mudanças climáticas, da perda da biodiversidade e de todas as poluições que estragam o mundo. Um líder do Reunião Nacional já disse que o IPCC ‘exagera’ nas suas recomendações”, comentou. “Até quando eles tentam dizer que não são negacionistas, vemos que eles não têm nenhuma visão sobre como eles vão enfrentar a questão climática, se chegarem ao poder.”

    O partido poderia se inspirar na gestão da italiana Giorgia Meloni. Uma vez na chefia de governo, a líder do Fratelli d’Italia pisou no freio das ambições climáticas do país, a exemplo do recente endurecimento das regras para a instalação de painéis solares na Itália.

    Meloni também adota um duplo discurso: na esfera internacional, se mostra colaborativa nas negociações climáticas, mas no âmbito interno permite que ministros e aliados questionem as ciências do clima.

  • Quase um quarto do território brasileiro já foi queimado pelo menos uma vez nas últimas quatro décadas. Desta área, mais de 68% era de vegetação nativa, principalmente na Amazônia e no Cerrado. A nova Coleção do MapBiomas Fogo, divulgada nesta terça-feira (18) pela iniciativa, também revela que, proporcionalmente, o Pantanal – atualmente consumido pelas chamas – é o bioma mais atingido.

    O relatório inclui dados de 1985 a 2023 sobre as queimadas em todo o Brasil, apoiados por imagens de satélite e inteligência artificial. No total, 199,1 milhões de hectares foram queimados no país, ou 23% do território nacional, afirma o estudo. O Mapbiomas reúne acadêmicos, organizações não-governamentais e empresas de tecnologia.

    Os três Estados brasileiros com maior avanço da agropecuária no período, Mato Grosso, Pará e Maranhão, concentram 46% dos registros históricos de fogo. Além disso, 65% da área afetada no país foi queimada mais de uma vez em 39 anos, sendo o Cerrado o bioma com a maior área queimada recorrente.

    "As atividades humanas tem mudado o regime do fogo, a forma como ele acontece. O fogo não está mais acontecendo naturalmente na época em que deveria acontecer, nem na frequência em que deveria”, explica Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e coordenadora do Mapbiomas Fogo.

    "Em um cenário em que as mudanças climáticas têm impactado os eventos climáticos extremos, como El Niño, em sua intensidade e frequência, isso vai gerar condições em que os incêndios aumentem. Para que os incêndios não fiquem cada vez maiores, a gente precisa reduzir o uso do fogo nas práticas agropecuárias, seja para o desmatamento como para o manejo da terra”, afirma.

    Proporcionalmente, Pantanal é o mais queimado

    Embora o Cerrado (44% do total queimado no país) e a Amazônia (19,6%) sejam os biomas mais atingidos, o Pantanal é o que teve maior área afetada em relação ao seu tamanho total: 9 milhões de hectares, ou 59,2% do bioma, já viraram fumaça pelo menos uma vez.

    O relatório é divulgado no momento em que as chamas consomem a região, em meio a uma seca prolongada, que facilita a ocorrência e a propagação do fogo, em um ritmo preocupante. O rio Paraguai encontra-se nos menores níveis históricos.

    "O Pantanal vem secando ao longo das últimas décadas. O que a gente tem visto na série histórica, nos últimos 38 anos, é que a seca tem ficado cada vez mais evidente. O Pantanal já perdeu mais de 29% da sua superfície de água”, aponta biólogo Gustavo Figueiroa, diretor de comunicação da SOS Pantanal.

    A temporada de queimadas este ano chegou dois meses mais cedo do que o esperado, durante a estação seca (de junho a outubro). O período que vem pela frente tem tudo para ser dramático: o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) aponta que todo o bioma está em estado de alerta e há “alta probabilidade de fogo” principalmente no Mato Grosso do Sul.

    Panorama atual é pior do que recordes de 2020

    Na comparação com as piores queimadas da história no Pantanal, em 2020, este ano já registra uma área 54% maior de fogo, mostrou um levantamento por satélite da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A SOS Pantanal alerta que as condições estão similares às de quatro anos atrás, e lamenta a falta de investimentos na prevenção contra os incêndios desde então.

    Figueiroa esteve há poucos dias ajudando a combater o fogo na região: "O acesso é muito difícil, a logística é complicada para chegar. Vamos precisar do apoio de aeronaves, de helicópteros para transportar as equipes até o local de combate e aviões para soltar água na linha do fogo”, indica.

    “Eu estou bem preocupado porque é possível que a gente reviva este ano o inferno que foi 2020. A gente imaginou que o poder público, em todas as suas instâncias, iria aprender com isso, mas o que a gente viu é que esse aprendizado está muito devagar perto do avanço da seca, dos incêndios e das mudanças climáticas como um todo", observa o pesquisador.

    Em todo o país, o número de queimadas nos primeiros quatros meses do ano, até 1° de maio, é o maior da história das medições do Inpe (Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais), iniciadas em 1998. A chegada do fenômeno La Niña, esperada para o segundo semestre, poderá atenuar este cenário, ao trazer chuvas para o norte do país.

  • As delegações dos quase 200 países que participam da Conferência da ONU sobre as Mudanças do Clima encerram nesta quinta-feira (13), na Alemanha, dez dias de reuniões técnicas para encaminhar a COP29. Este ano, o evento acontecerá no Azerbaijão e se foca no delicado tema do financiamento climático – mas o encontro preparatório, na cidade de Bonn, falhou em trazer respostas para a questão.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Isso significa que caberá aos ministros e chefes de Estado e de Governo tomarem as decisões, durante as duas semanas da COP, em novembro. Um dos principais objetivos é estabelecer uma nova meta anual de financiamento para os países em desenvolvimento conseguirem promover a transição para uma economia sem emissões de carbono e se adaptarem às mudanças do clima. Este montante, que substituirá os atuais US$ 100 bilhões, é estimado entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,4 trilhão.

    “Estamos um passo à frente de onde nos encontrávamos antes. Nós temos um texto. Porém, o conteúdo desse texto não é fruto de um consenso, mas sim, reflete um apanhado de visões conflitantes”, relata Eneas Xavier, que está em Bonn como observador da sociedade civil das negociações pela organização La Clima.

    “A impressão que fica é que os países falharam: perderam a oportunidade de avançar nesta pauta e deixaram o trabalho mais difícil para o final do ano”, diz o especialista em financiamento climático.

    Desconfiança afeta negociações

    As reuniões ocorrem sob um forte clima de desconfiança entre as nações em desenvolvimento e as desenvolvidas – que falharam em cumprir a meta de US$ 100 bilhões anuais a partir de 2020, conforme haviam prometido em 2009. A complexidade do cálculo – se envolve fundos de apoio ao desenvolvimento já existentes, por exemplo, ou se virá por subsídios ou empréstimos – torna o tema controverso há anos.

    “Já existe um histórico de décadas de endividamento público dos países em desenvolvimento para os investimentos em infraestruturas, que está em xeque devido à crise climática, como vemos no caso do Rio Grande do Sul, mas também no litoral paulista ou na grande seca que enfrentamos na região da Amazônia, no ano passado”, exemplifica Xavier. “Se a gente depender de recursos privados para a nossa adaptação e, principalmente, para reparar perdas e danos, essa conta vai ficar muito cara.”

    Outra fonte de bloqueio é a eventual ampliação da base de contribuintes para o financiamento. A União Europeia martela que a atual maior emissora de gases de efeito estufa, a China, deveria colaborar – o que também abriria a porta para outros grandes emergentes, como o Brasil, serem cobrados.

    “É um objetivo ainda muito controverso nas negociações porque é estruturado em uma convenção que data de 1992, com categorias de países que determinavam muito claramente quem são os países que deveriam contribuir. Mas hoje estamos em 2024 e alguns argumentam que um certo número de países em desenvolvimento tem a capacidade de fazê-lo”, pontua Lola Vallejo, diretora do programa Clima do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (Iddri), em Paris.

    China e Brasil se recusam a mudar de ‘categoria’

    Ela ressalta, entretanto, que a China já é uma grande contribuidora das finanças climáticas, por meio de seus programas de desenvolvimento de infraestruturas mundo afora. Algumas pesquisas chegam a apontar que, em 2018, Pequim já teria sido a sétima maior financiadora, em volume de recursos.

    Para as nações ricas, o grupo de países membros do G20 refletiria melhor a realidade de hoje, em que os países emergentes subiram para o topo dos maiores emissores. Mas tanto Pequim, quanto Brasília, recusam categoricamente a mudança de status.

    “O posicionamento da China, assim como o do Brasil, é irredutível. Eles afirmam que não estamos aqui para rediscutir os termos do Acordo de Paris e da Convenção-Quadro do Clima e recai, exclusivamente, sobre os países desenvolvidos a obrigação de prover recursos financeiros”, frisa Xavier.

    Sistema financeiro a serviço do desafio climático

    A pesquisadora francesa salienta que a discussão que também está sobre a mesa é como todo o sistema financeiro internacional poderá atender ao desafio das mudanças do clima.

    “É sobre como vamos conseguir mudar essa discussão, ou seja, reformar as instituições financeiras internacionais e a forma como o nosso sistema financeiro atual poderia ser mais efetivo para estar à altura dos nossos objetivos contra as mudanças climáticas. Como vamos repensar a gestão das dívidas, como vamos adotar os direitos de saque especiais do FMI, ou seja, como todas essas instituições poderão atuar em favor dos objetivos climáticos”, explica.

    A criação de um mecanismo de monitoramento, para que o financiamento seja assegurado, está sendo desenhada.

    Restam muitos colchetes em aberto, constata Eneas Xavier. Mas apesar de tantas discórdias, o especialista não acha que a COP 29 possa terminar sem acordo e o assunto seja postergado para a COP 30, em Belém do Pará, em 2025.

    “Eu acredito que para o bem ou para o mal, essa decisão vai, sim, ser tomada em Baku. Existe já a previsão de que esta Nova Meta Coletiva Quantificada de Financiamento Climático entre em vigência em 2025, e para que isto ocorra, a decisão tem que ser tomada na COP29”, aposta. “Não acredito que a COP terminará sem uma decisão tomada.”

  • A Agência de Observação Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) alertou que a temporada de furacões do Atlântico de 2024, recém iniciada, deverá ser “extraordinária" este ano. O impacto das mudanças do clima sobre a frequência e a intensidade dos furacões e ciclones intriga os cientistas.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Se, por um lado, eles são fenômenos climáticos naturais do planeta, por outro, o aumento da temperatura global, inclusive dos oceanos, tem levado a sua intensidade a também ser maior.

    A agência nunca havia previsto um número tão alto em suas projeções de maio: poderão ocorrer de quatro a sete furacões de categoria 3 ou mais, o que significa ter ventos superiores a 178 km/h, podendo chegar a 250km/h.

    Cientistas americanos chegam a defender que a escala Saffir-Simpson, que mede a força destes eventos e atualmente termina em 5, ficou obsoleta e deveria ser expandida para 6. O tema reúne alguns dos maiores especialistas do mundo em um colóquio na França, promovido pela Universidade Paris-Saclay no mês de junho.

    "Até poucos anos atrás, não havia uma resposta para essa pergunta: a queima de combustíveis fósseis está fazendo os ciclones serem mais intensos ou frequentes? Essa era uma pergunta em aberto até pouco tempo, mas agora nós começamos a chegar a algumas respostas”, aponta Davide Faranda, diretor de pesquisas em climatologia do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas), da França.

    "Os primeiros estudos sobre ciclones tropicais começaram a sair e já sabemos que, pelo menos para estes ciclones, as mudanças climáticas – ou seja, a queima de combustíveis fósseis feita por nós, seres humanos – estão, sim, modificando pelo menos a intensidade de alguns ciclones tropicais”, afirma.

    La Niña combinada com aquecimento do Atlântico

    A chegada do fenômeno La Niña ajuda a explicar a temporada violenta de ciclones e furacões que está por vir, e que atinge principalmente o Caribe, a América Central e a América do Norte. La Niña resfria as águas do Pacífico e influencia o clima global. Uma das suas consequências no Atlântico é a diminuição da dispersão dos ventos nas regiões onde costumam se formar e avançar os furacões.

    Isso vai ocorrer num contexto em que as temperaturas do Atlântico norte estão anormalmente altas. A associação dessas condições favorece ainda mais a formação dos fenômenos extremos, que podem avançar para a terra firme, com efeitos devastadores.

    A brasileira Suzana Camargo, pesquisadora de ciências do clima e especialista em fenômenos extremos da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, ressalta que os especialistas estudam o impacto no clima das conexões entre o norte e o sul do oceano Atlântico – um equilíbrio que também é afetado pelo aquecimento do planeta.

    "Todos esses efeitos podem, às vezes, combinar e levar a extremos climáticos não apenas no Brasil, como no Caribe e na África”, aponta.

    A pesquisadora compara a situação ao lançamento de um dado. "Você tem um sexto de probabilidade de cair em cada lado. Mas se o seu dado estiver um pouco deformado, não vai ser mais um sexto para cada lado. As probabilidades terão mudado”, explica. "É assim que eu gosto de pensar no aquecimento global: você está mudando as probabilidades do seu dado."

    Impacto na América Latina

    No Brasil, La Ninã poderá provocar seca no sul e sudeste e aumentar as chuvas no norte e nordeste. O professor emérito de ciências da atmosfera do MIT (Massachussets Institute of Technology) Kerry Emanuel assinala que, por enquanto, a ocorrência de ciclones e furacões na parte sul das Américas deve permanecer rara. Mas isso não significa que a região esteja ao abrigo de outros fenômenos extremos, a exemplo das recentes enchentes no Rio Grande do Sul.

    "Não vejo razão para este tipo de evento climático extremo mudar muito, porque tem uma parte do mundo que não é favorável à ocorrência de ciclones tropicais. Mas tem outros eventos extremos que afetam a América do Sul, em especial inundações”, destaca.

    "A região dos Pampas, na Argentina, tem um problema de tempestades severas convectivas, e este é um fenômeno que não tem merecido a atenção que deveria dos cientistas do clima, assim como da imprensa, exceto quando acontecem e são terríveis. O granizo causa inúmeras perdas todos os anos e estamos apenas começando a entender como essas tempestades estão respondendo às mudanças do clima”, salienta Emanuel.

    Suzana Camargo complementa: “Não vai ter impactos diretos dos furacões e ciclones no Atlântico norte, mas a gente sempre pode pensar em termos dos extremos climáticos que estão acontecendo no mundo todo. Não é só em relação a furacões, mas todos outros tipos de eventos extremos”, afirma. “O Brasil está presenciando isso, mas também tem uma onda de calor imensa na Índia. Estamos vendo todos os dias que eles estão ocorrendo no mundo inteiro. A situação está muito preocupante."

    A temporada de furacões e ciclones no Atlântico vai de junho a novembro. Já o fenômeno La Niña costuma perdurar de um a três anos.

    Neste segunda-feira (3), pesquisadores do WWA (World Weather Attribution) revelaram um estudo mostrando que as mudanças climáticas dobraram a chance de chuvas extremas no Rio Grande do Sul, além de aumentarem até 9% a sua intensidade. Quando associadas ao fenômeno El Niño, que acaba de concluir um ciclo, essa chance pode ser multiplicada por até cinco, alertou a pesquisa, realizada por cientistas internacionais, inclusive do Brasil.

  • A Olimpíada de Paris 2024 se apresenta como exemplar no quesito ambiental e optou por não equipar a Vila Olímpica com ar condicionado. A decisão causou insatisfação de algumas delegações, como a do Brasil, já que as competições ocorrerão em pleno verão europeu. Com a medida, Paris busca expandir a reflexão sobre quando a climatização é realmente necessária, em um mundo em plena adaptação para enfrentar temperaturas que serão cada vez mais quentes.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Em julho e agosto, os termômetros podem chegar perto dos 40°C na capital francesa, uma realidade relativamente nova para os habitantes da cidade. Conforme a Agência Parisiense do Clima, o número médio de dias com tempo canicular por ano – ou seja, com temperatura máxima superior a 31°C durante o dia – passou de 7,2 para 16,6, na comparação com os dados do fim do século 19. O aumento, mais acelerado a partir dos anos 2000, foi ainda mais impressionante nas medições do calor noturno: na última metade do século retrasado, fazia mais de 21°C apenas 0,2 noites por ano – e, agora, esse número subiu para cinco.

    O comitê de organização dos Jogos Olímpicos de Paris tomou este cenário em conta na construção da Vila Olímpica, com o que há de mais moderno em isolamento térmico dos prédios e sistemas naturais de resfriamento. A concepção do local garantiria uma temperatura máxima de 28°C nas instalações, mesmo nos dias mais quentes.

    Em caso de calor extremo, ventiladores serão distribuídos e aparelhos móveis de ar condicionado poderão ser instalados “nos quartos mais expostos”, explicou o comitê, por email à RFI. Paris 2024 se diz pronto para adaptar “medidas estritamente proporcionais às necessidades dos atletas”, se necessário.

    “A responsabilidade ambiental está no coração do nosso projeto desde a nossa candidatura”, salienta o texto.

    Delegações vão alugar ar condicionado por conta própria

    Os argumentos, entretanto, não convenceram todas as delegações que participarão do evento. Estados Unidos, Canadá e Noruega já se prepararam para alugar aparelhos e equipar os seus alojamentos. O Brasil também fez essa escolha.

    "A gente não tem como correr riscos para a performance dos nossos atletas. A gente não é uns Estados Unidos, uma China, que têm uma abundância de possibilidades de medalhas. As medalhas e as chances de medalhas que a gente tem, a gente precisa guardar e cuidar muito bem”, justifica Sebastian Pereira, gerente de Alto Rendimento e Jogos e Operações Internacionais do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

    O COB diz valorizar as iniciativas de sustentabilidade no esporte e não considera a decisão de Paris “exagerada”. Entretanto, alega que o descanso em boas condições é fundamental para o desempenho dos competidores, que treinaram por anos para chegar à Olimpíada. "A gente está pensando em poder dar ao atleta a melhor condição para ele poder performar”, explica Pereira.

    Por isso, não serão estabelecidas restrições para o uso do ar condicionado nas instalações do Brasil durante as competições. "Se a gente tiver uma temperatura avançada, o que a nossa área científica e médica nos colocam é que se estiver acima de 24°C no ambiente, a recuperação do atleta pode ser prejudicada e deficiente pra aquilo que a gente almeja. A gente não pode arriscar”, ressalta.

    Por que o ar condicionado é solução e problema ao mesmo tempo

    A refrigeração do ambiente não é só uma questão de conforto: também salva milhares de vidas de pessoas mais vulneráveis, como idosos, gestantes e bebês, e mantém o funcionamento de hospitais, supermercados e fábricas. Ainda é crucial para a vida digital, ao permitir o armazenamento e transferência de informações nos data centers.

    O grande paradoxo é que, ao mesmo tempo em que solucionam o problema das temperaturas elevadas em ambientes fechados, os aparelhos de refrigeração contribuem, e muito, para piorar o aquecimento global. Eles representam uma fonte importante de emissões de gases de efeito estufa que causam a desregulação do clima, por duas razões principais: o elevado consumo energético e o uso de fluidos refrigerantes, os hidrofluorcarbonos (HFCs).

    Esses químicos despejam, lentamente, gases com uma capacidade de aquecimento da atmosfera que chega a ser três mil vezes maior que o CO₂.

    Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) indicou, em 2018, que os equipamentos eram responsáveis pela emissão de 1 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. O número é significativo, na comparação com o total de 40 bilhões de toneladas emitidas no mundo.

    Além disso, o ar quente eliminado no procedimento de refrigeração de prédios e carros piora ainda mais o calor nos centros urbanos. Diferentes estudos científicos apontaram que este ar rejeitado chega a elevar até 2,4°C a temperatura do ar.

    O relatório da AIE antecipa que o resfriamento de casas e escritórios vai triplicar e será uma das principais causas do uso da energia até 2050. Além da alta das temperaturas, a ascensão econômica e social de potências populosas como China e Índia também impulsionarão este consumo.

    Refrigeração e justiça climática

    A reflexão sobre o acesso à climatização se insere nas discussões sobre justiça climática: apenas 15% das pessoas que vivem em lugares com clima quente se beneficiam da climatização. Em 2021, uma pesquisa internacional com a participação de cientistas brasileiros antecipou que até 100 milhões de famílias no Brasil, Índia, Indonésia e México não conseguirão atender às suas necessidades de refrigeração, sobretudo nas grandes cidades, que concentram calor.

    "Se você não tem o dinheiro para comprar o ar condicionado ou pagar a conta de luz depois, você não consegue se adaptar ao clima. Temos uma complexidade grande de as pessoas que menos contribuíram para a mudança climática, que é a população de mais baixa renda, serem as que mais sofrer com essas mudanças”, afirma a pesquisadora Talita Borges Cruz, do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe/ UFRJ), uma das participantes do estudo.

    "É claro que durante o verão é bem quente lá, mas para eles o maior problema é o aquecimento no inverno, e para a gente é o contrário. A gente quer resfriar e com as ondas de calor, ficou ainda mais evidente essa necessidade, o quanto isso demanda de energia”, analisa.

    Na Europa, apesar do aumento da consciência ambiental e de, culturalmente, os europeus serem avessos ao uso do ar condicionado, essa rejeição tem ficado para trás diante do desconforto das temperaturas mais elevadas. Em 2018, cerca de 90% dos lares americanos eram equipados, contra 19% dos europeus. Mas a AIE antecipa que o número deve quadruplicar na Europa até meados do século.

    Talita Rodrigues avalia que essa desigualdade também se reflete na decisão de Paris 2024 de não instalar os aparelhos em toda a Vila Olímpica, mas permitir que as delegações o façam por conta própria.

    "É um paralelo com a realidade que a gente vive: as comitivas que têm recursos terão seus atletas, teoricamente, mais descansados do que os das outras que não têm os recursos para instalar o ar condicionado”, destaca Cruz.

    Foco deveria ser cumprir metas climáticas

    A pesquisadora também avalia que, ao direcionar a responsabilidade para o usuário, os governos continuar a se eximir das próprias responsabilidades de atingir as metas climáticas que assumiram nos tratados internacionais.

    "Claro, cada pessoa tem que fazer a sua parte e ter consciência, mas eu acho que a conversa é mais ampla. Você acaba jogando a responsabilidade no mais fraco, ao invés de olhar para a sua matriz elétrica, como essa energia é fornecida para o ar condicionado”, salienta a especialista. "O mais importante é a gente poder chegar lá na frente com um clima em que as pessoas não precisem consumir tanto ar condicionado”, indica.

    A Agência Internacional de Energia e as Nações Unidas pedem “urgência” no desenvolvimento de aparelhos com maior eficiência energética e menor impacto ambiental, inclusive que não possam mais ser regulados para resfriar menos do que a 24°C.

    Os dois organismos também salientam a importância dos investimentos em técnicas de construção que limitam o calor, como imóveis melhor planejados para favorecer a circulação do ar e preservar o isolamento térmico e telhados arborizados, além do aumento das áreas verdes nas cidades.

  • As enchentes históricas no Rio Grande do Sul, o terceiro desastre climático no Estado em menos de um ano, fazem o Brasil sentir na pele o que os cientistas têm alertado há anos sobre as mudanças do clima que já ocorrem e vão se aprofundar. Mas as águas nos telhados das casas não bastaram para convencer uma minoria de brasileiros de que as alterações climáticas existem e, principalmente, são causadas pela ação humana. Como explicar a persistência do negacionismo, mesmo diante das evidências?

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Uma ampla maioria de brasileiros, em torno de 90%, conforme pesquisas realizadas antes e depois da tragédia, reconhecem o problema. Entretanto, cerca de 15 a 20% dissociam a responsabilidade humana sobre o aquecimento do planeta e preferem acreditar em outras explicações.

    Essas versões vão desde os ciclos naturais da Terra até estudos sobre o espaço – como o projeto sobre a ionosfera Haarp, realizado nos Estados Unidos – ou conspirações internacionais que teriam forjado, de propósito, um volume excepcional de chuvas no Estado brasileiro.

    A RFI conversou com dois pesquisadores que estudam este comportamento – um, do ponto de vista da assimilação da informação, e o outro focado nos mecanismos cerebrais da crença em teorias do complô. Sebastian Dieguez, pesquisador no Laboratório de Neurociências Cognitivas e Neurológicas da Universidade de Friburgo, na Suíça, afirma que não é novo o conspiracionismo emergir em meio a situações trágicas.

    "Os rumores e as informações falsas sempre circularam facilmente em todo o tipo de períodos angustiantes e preocupantes. Mas o que estamos vendo cada vez mais é essa angústia, esse medo, serem tão fácil e estrategicamente explorados por diferentes movimentos e ideologias”, indica o neurocientista. "Eles têm sabido se aproveitar dessas preocupações de uma forma cínica, oportunista, para se propagarem ou para ganharem dinheiro."

    Negar o problema é solução mais fácil

    O linguista Albin Wagener, pesquisador de ciências da linguagem e da informação na Universidade Católica de Lille, observa que a mudança do clima aparece como um tema “complexo demais” e sua compreensão pode não ser simples, inclusive para aqueles com níveis elevados de escolaridade. Sua escala é tão vasta e suas consequências, tão graves, que muitos têm dificuldade de acreditar que o homem possa ter sido o causador de uma anomalia dessa magnitude – e uma reação natural humana à tragédia é a negação.

    "É como num luto: quando você perde uma pessoa, você tem um período de negação porque essa informação é muito dura para você. O paralelo é esse: temos que fazer o luto do mundo de antes, tanto o luto do clima de antes, que está mudando, quanto da nossa organização social e econômica, que não é mais adaptada a essa situação. Foi ela que destruiu o planeta”, explica.

    "Só que tudo isso é informação demais: termos que transformar a economia, o consumo, a sociedade. Outra reação muito humana é querer se proteger – e a negação é uma forma de proteção”, aponta.

    Nas redes, todo o tipo de teses são propagadas

    Políticos e um número insignificante de cientistas captaram e exploram esse sentimento, assim como formadores de opinião e produtores de conteúdo amadores. Na maioria das vezes, essas pessoas jamais estudaram climatologia – mas a celebridade delas confere credibilidade às teses alternativas.

    A abundância de todo o tipo de informações pelas redes sociais pode parecer ter democratizado o conhecimento, mas também virou um canal aberto para a propagação de teorias sem qualquer comprovação científica, nota Wagener.

    "Com as redes sociais e a forma com a qual a própria imprensa se estruturou nos últimos anos, entramos em uma sociedade em que todas as opiniões são equivalentes. Na televisão, vemos pesquisadores ao lado de comentaristas e políticos, o que dá a impressão de que todas as opiniões sobre um assunto valem – só que isso não é verdade”, ressalta. "Um pesquisador é especialista na sua área de estudos, e ninguém mais em volta é, a princípio. Isso tem um peso, causa um efeito que a gente muitas vezes não percebe, mas que ajuda a embaralhar a nossa percepção das coisas."

    O negacionismo climático nasceu há mais de quatro décadas, no meio complotista e neoconservador americano – que, por definição, é avesso à ecologia. A natureza, alegam seus adeptos, é uma mera fonte de recursos à serventia dos seres humanos.

    Assim, a redução das emissões de gases de efeito estufa, causadores do aquecimento anormal do planeta, é vista como um freio para a atividade econômica e o livre mercado. Não à toa, o setor petroleiro foi um dos que mais contribuíram para divulgar o lobby negacionista.

    O neurocientista Sebastian Dieguez ressalta que o movimento é parecido com o dos antivacinas, e é marcado por diversos tipos de adesões. "Algumas pessoas simplesmente não se interessam muito pelo assunto e adotam a opinião de alguém que elas conhecem. Não são necessariamente extremistas, só não se importam”, cita. “E temos uma nova onda, que estamos chamando de novos complotistas, que surgiu por volta de 2016, com a ascensão dos movimentos populistas e antissistemas, Donald Trump e o Brexit, e se reforçou muito durante a pandemia”, complementa.

    Para estes últimos, o tema foi rapidamente politizado e assimilado na polarização entre direita e esquerda. "Muitas vezes, eles precisam ser contra e assumir essa posição se quiserem demonstrar a sua lealdade a este grupo político ao qual pertencem. A pessoa pode temer ser rejeitada pelo grupo, ser considerada como não tão engajada assim. Então ela acha que precisa se associar a essa crença que está circulando entre os seus pares, assim como precisa seguir os influenciadores, os veículos e grupos de informação que a impulsionam”, detalha Dieguez.

    Como combater o negacionismo?

    Quanto ao futuro, os dois pesquisadores ressaltam que o contato mais próximo com a realidade das mudanças do clima "é um dos remédios incontornáveis contra o negacionismo”. “Acho que as pessoas deveriam buscar encontrar mais aquelas que enfrentam as dificuldades do clima todos os dias nas suas atividades, como os agricultores, independentemente dos seus posicionamentos políticos. Talvez assim elas vejam o quanto o problema é concreto, os eventos são graves, com impactos econômicos, sociais, culturais e migratórios muito fortes”, sublinha segundo Albin Wagener.

    O cientista da Universidade de Friburgo avalia que o maior acesso à informação certificada também pode ser uma solução valiosa – porém é ineficaz nos casos de radicalismo contra a ciência.

    "Às vezes, é simplesmente o tempo que vai fazer com que o assunto saia do foco e a pessoa mude de ideia mais tarde. E também vemos muito as pessoas percebendo que houve algo de imoral por trás daquela posição que elas assumiram. É o caso de quando um político enriquece graças a este apoio”, lembra. "De toda a forma, é algo que pode levar muito tempo e é um caminho pessoal que a pessoa deve decidir seguir. É muito difícil de tirar alguém à força das suas convicções.”

  • As enchentes sem precedentes que afundaram o Rio Grande do Sul no caos ilustram o duro impacto das mudanças climáticas nos países menos desenvolvidos, onde falta estrutura de prevenção, de enfrentamento de desastres e, depois, de reconstrução. A tragédia expõe a necessidade de financiamento climático para as nações mais pobres enfrentarem os fenômenos extremos – mas, no caso do Brasil, também evidencia como o país negligencia os investimentos em adaptação às alterações do clima.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Cidades inteiras gaúchas precisarão ser reconstruídas – casas, estradas, infraestruturas, serviços. Os governos nas diferentes esferas e instituições privadas agora se concentram no problema emergencial do resgate e apoio aos desabrigados e restabelecimento dos serviços atingidos.

    O cálculo preciso dos prejuízos de uma catástrofe dessa magnitude vai levar tempo. O número deve passar da centena de bilhões de reais – sobretudo se também incluir um plano estruturado para evitar que os futuros eventos extremos sejam tão devastadores.

    “A gente, antigamente, nos contratos de infraestrutura, por exemplo, chamava esses riscos como sendo de 'força maior’. Era uma coisa que ninguém podia prever, que acontecia a cada 10 anos, que nem era contabilizado porque poderia ser um terremoto que ocorre a cada 50 anos”, explica Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e uma das maiores especialistas do país sobre o assunto. “Esses riscos agora passam a ser recorrentes, e o custo de inação, o fato de não ter prevenido, é muito mais alto do que se tivesse sido feito”, frisa Netto, que antes atuou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

    Segundo levantamento do Centro Brasileiro do Clima, somente três Estados brasileiros possuem planos atualizados de adaptação. Além disso, os recursos disponibilizados são insuficientes e sequer chegam a ser plenamente utilizados. Até o começo do mês, o Brasil havia usado apenas 19% da verba prevista no Orçamento da União para a prevenção e combate de desastres neste ano – principalmente devido à falta de projetos apresentados pelos Estados e municípios, que carecem de pessoal especializado.

    “Não basta simplesmente construir tudo como era, diante da informação e da certeza de que estamos todos sujeitos aos riscos climáticos. É preciso reconstruir as moradias, os negócios e a estrutura econômica de praticamente todo o Rio Grande do Sul, mas em novas bases”, salienta Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, focado em políticas públicas resilientes à mudança do clima. “Não se trata de reconstruir o desastre.”

    Projeto de lei para acelerar planos de adaptação

    A prevenção inadequada é um problema não apenas do Brasil. As previsões de orçamento e os planejamentos de infraestrutura, investimentos ou de agricultura atuais, inclusive dos seguros, são baseados em dados históricos de riscos. “Ainda não há o hábito fiscal de prever o custo da inação. A gente não faz uma análise mais sofisticada, que considere que se os últimos 5 anos foram fora da curva, talvez eles sejam a nova curva”, observa Maria Netto.

    Em meio ao drama gaúcho, o Senado acelerou a análise e a aprovação do projeto de lei 4.129/2021, que estabelece as diretrizes para os planos de adaptação em níveis federal, estaduais e municipais. O texto havia passado pela Câmara no fim de 2022 e ainda não havia sido apreciado pelos senadores.

    A diretora-executiva do iCS ressalta que os governos tendem a privilegiar investimentos de efeito imediato em vez daqueles para melhorar a resiliência a eventos futuros, sem prazo para ocorrerem.

    “Os governos não veem o benefício direto. É muito mais fácil financiar um shopping center, uma zona de comércio, que todo mundo vai achar que vai criar empregos, do que transferir a construção de uma estrada para um lugar mais seguro devido ao risco de enchentes, investir em barragens, sistemas de drenagem”, diz Netto. “Mas se eu não fizer isso, é batata: vai haver um custo econômico lá na frente, muito maior, que eu vou ter que pagar”, adverte.

    Quem paga a conta do clima?

    De um ponto de vista mais amplo, as inundações no Rio de Sul ilustram um debate antigo na esfera internacional: quem deve pagar essa conta? Os países dispõem de verbas especificas para desastres, mas os menos desenvolvidos encontram-se em uma situação não apenas mais fragilizada, como também alegam estarem sofrendo os danos de um problema maior causado pelos países desenvolvidos.

    O Brasil poderia pleitear os recursos internacionais previstos na Convenção da ONU sobre as Mudanças do Clima para os países em desenvolvimento se prepararem melhor. O fundo de US$ 100 bilhões anuais, prometidos há 14 anos pelos países avançados, pena a ser concretizado e o valor já está desatualizado em relação às necessidades reais.

    “O Brasil, até hoje, nunca deu prioridade para isso, porque sempre imaginou que outros países mais pobres, menores e inclusive mais vulneráveis, é que deveriam poder acessar e não nós, que somos uma economia média, emergente”, nota Natalie Unterstell. “Nós nunca acessamos o Fundo de Adaptação, a gente não tem projetos grandes para outros fundos climáticos internacionais. O Brasil realmente nunca priorizou isso, e acho que agora é um bom momento.”

    Desde a revolução industrial, as emissões de gases de efeito estufa pelas nações ricas dispararam e causaram o aquecimento anormal do planeta, que desregula o clima na Terra. Para que as consequências não sejam ainda mais graves no futuro, as emissões mundiais precisariam cair pela metade até o fim desta década e serem zeradas até 2050.

    “É claro que recursos para que o Rio Grande do Sul e o Brasil tenham melhores condições para começar essa nova construção são bem-vindos. Mas o principal não é isso. A responsabilidade da comunidade internacional é compartilhar os custos e garantir que a gente vai chegar à descarbonização da economia global – porque senão, sem combater a causa, não adianta”, frisa a presidente do Instituto Talanoa.

    Financiamento climático e desenvolvimento

    O debate sobre financiamento climático também é associado ao desenvolvimento – ao proporcionar habitações mais seguras e em locais menos expostos, o país também melhora as condições de vida das populações mais vulneráveis.

    O Brasil teria uma oportunidade de ouro para isso: o Novo PAC, principal programa de investimentos do país, poderá mobilizar R$ 1,3 trilhão até 2026 – mas os recursos estão sendo alocados em projetos que desconsideram o “novo clima”, salienta Unterstell.

    Maria Netto avalia que, mais do que acesso a recursos financeiros, o que falta ao Brasil é apoio técnico para um planejamento estratégico de adaptação.

    “Acho que o Brasil se beneficiaria muito de aprender mais com outros países. A gente poderia, por exemplo, ver como a Jamaica está fazendo, porque a Jamaica provavelmente tem mais experiência em fazer critérios de mais resiliência das infraestruturas”, afirma. “Às vezes, a gente acha que é muito grande e tem tudo para ensinar, mas também temos muito para aprender.”

    O tema do financiamento será o foco da próxima Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, a COP29, que acontecerá em novembro no Azerbaijão. Os países deverão chegar a um consenso sobre uma nova meta global de recursos para o clima.

  • Enquanto o governo envia sinais contraditórios sobre o rumo da política ambiental no país, a bancada ruralista no Congresso acelera a ofensiva para promover retrocessos na legislação. O chamado “pacote da destruição” em tramitação na Câmara ou no Senado mais que triplicou em relação aos anos Jair Bolsonaro, denunciam organizações ambientalistas.

    A lista atualmente conta com mais de 20 projetos de lei, entre eles alguns que visam desidratar o Código Florestal, maior instrumento legal de proteção das florestas no país. Os textos vistos como os mais perigosos são o PL 3.334/2023, que pode reduzir a área de preservação da Amazônia para 50%, em vez dos atuais 80%, o PL 364/2019, que transforma em áreas rurais aquelas com vegetação de tipo não florestal, como as do Cerrado e do Pantanal, os PLs 1366/2022 e o 10.273/2018, que amputam recursos financeiros de órgãos ambientais responsáveis pela fiscalização, como o Ibama, e o chamado PL da devastação, 2.159/2021, pelo qual as regras de licenciamento ambiental no Brasil seriam amplamente flexibilizadas.

    “O Brasil tem uma legislação forte, consistente, embora a gente tenha dificuldade de implementação. Mas eles estão tentando flexibilizar essa legislação de forma geral”, alerta Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima. “Estamos vendo isso todo dia. Esses são os que estão na pauta nas últimas semanas. Eles ainda têm que tramitar nas duas Casas de forma completa, mas as chances de passarem são grandes.”

    A bancada ruralista conta com uma maioria de 324 dos 513 deputados federais e 50 dos 81 senadores – o que significa que é capaz de aprovar ou barrar qualquer texto. O grupo, hoje mais numeroso do que durante o governo anterior, encara as regras ambientais como entraves que precisam ser combatidos. A Comissão do Meio ambiente sequer tinha presidente e não havia realizado nenhuma sessão este ano, até o fim de abril.

    Exemplos recentes do que essa força representa foram a aprovação da nova lei dos agrotóxicos e sobre o marco temporal, referente à delimitação dos territórios indígenas, em 2023.

    Lula no exterior x realidade do Congresso

    Nas viagens ao exterior, o presidente Lula tem exaltado o desempenho do governo, com trunfos como a queda do desmatamento da Amazônia e a adoção do primeiro Plano de Transformação Ecológica, pelo Ministério da Fazenda. Mas no âmbito nacional, está mais difícil de avançar na pauta ambiental do que parece.

    Com a configuração atual do Congresso, os projetos que envolvem o tema viraram "moeda de troca" para o governo aprovar outras agendas prioritárias, a exemplo da Reforma Tributária, aprovada no fim de 2023. Os paradoxos dentro do próprio governo sobre até que ponto o meio ambiente é, de fato, uma prioridade, fortalecem a percepção de que existe um olhar dúbio sobre o assunto – e abrem a brecha para que os projetos de lei envolvendo a pasta fiquem reféns do Congresso.

    “A demanda da bancada ruralista é a pauta ambiental. Tem uma racionalidade. O que não dá é para aceitar que a pauta ambiental seja a moeda de troca”, aponta Araújo.

    Os embates entre os ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas, de um lado, e dos Minas e Energia, do outro, são frequentes. O ministro Alexandre Silveira planeja alçar o país de nono para quarto maior produtor mundial de petróleo e defende que os recursos financiem o desenvolvimento do Brasil, em contradição com a emergência climática.

    O próprio presidente Lula também não esconde o desejo de ver avançar novas frentes de exploração do óleo no Brasil, como na bacia da foz do rio Amazonas. Na Câmara, até o deputado petista Nilto Tatto, coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, defende essa posição.

    “É papel nosso, enquanto ambientalistas, trabalhar para que se pare de utilizar as energias fósseis, mas eu também não posso falar aqui, de forma simples, que é fácil para o Brasil abandonar essa energia, por aquilo que ela representa, do ponto de vista de recursos e de capacidade do país, em termos de investimentos – inclusive na transição ecológica”, afirmou o parlamentar, à RFI Brasil.

    A dinâmica das votações também tem pego o governo de surpresa, ao passarem pelas comissões parlamentares – dominadas pelos ruralistas – sem sequer a realização de debates. Foi assim que o projeto de lei para limitar a cobrança da Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental acabou de avançar. Se aprovada, a mudança resultará em um corte estimado em 25% das receitas do Ibama, o órgão responsável por coibir crimes ambientais no país.

    "É evidente que a atual legislatura é desfavorável, mas, em geral, o governo não tem oferecido a resistência necessária para conter os graves retrocessos socioambientais em tramitação no Congresso, mesmo que sua aprovação signifique o descumprimento das metas climáticas, das promessas presidenciais e das políticas públicas em andamento, como o PPCDAm, que visa a proteção da Amazônia", salientou Mauricio Guetta, consultor jurídico do Instituto Socioambiental (ISA).

    Mais firmeza com deputados da base

    O deputado Nilto Tatto avalia que o Planalto deveria ser mais firme com os deputados da base que não têm seguido as orientações do governo.

    “Na hora da votação, o governo recomenda e eles não seguem. Não é tão simples dizer que a pauta está sendo moeda de troca para aprovar outras pautas”, argumenta. “Eu gostaria que o governo adotasse medidas mais drásticas. Poderia usar outros instrumentos para pressionar, como cargos reivindicados pelos partidos políticos e parlamentares, e emendas. Tem outros instrumentos para fazer valer o plano de governo que foi eleito e está sendo implementado pelo Executivo, e que o Congresso Nacional acaba atrapalhando em parte”, salienta.

    Além dos projetos do “pacote de destruição”, os ruralistas se mobilizam para alterar o DNA dos projetos voltados à transição energética do país – ainda sem estratégia clara, nem prazos, para se concretizar. O processo começou no ano passado, com a aprovação da regulamentação sobre as usinas eólicas offshore. Só que a Câmara incluiu no texto uma série de incentivos para indústrias poluentes, como gás e carvão.

    Da mesma forma, o projeto sobre os créditos de carbono no Brasil passou pelo Senado, mas os senadores excluíram do mercado regulado o setor agropecuário – que responde por 75% das emissões de gases de efeito estufa brasileiras.

    Os parlamentares também têm na mira as futuras leis sobre o hidrogênio verde e os biocombustíveis, entre outros projetos.

  • Representantes de 175 países, especialistas, organizações e lobistas da indústria realizam uma nova etapa de negociações das Nações Unidas de um tratado global contra a poluição dos plásticos – um derivado do petróleo onipresente na vida moderna. Ao mesmo tempo em que se tornaram banais, os plásticos ameaçam ecossistemas e atrasam o caminho para a redução do uso de fontes fósseis no mundo.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    A quarta rodada de diálogos, de um total de cinco, acontece em Ottawa, no Canadá. Nesta fase, a expectativa é os países conseguirem enxugar o texto que é negociado há quase dois anos. Até aqui, o processo tem sido marcado por fortes oposições entre os países produtores de petróleo, liderados pela Arábia Saudita, e os que desejam a adoção de um pacto internacional para limitar o consumo e a produção de determinados plásticos, como a maioria dos europeus. Um acordo final vinculante é esperado na reunião que ocorrerá em novembro, na Coreia do Sul.

    "O tratado é muito longo, detalhado, e tem muitos elementos que ainda estão em aberto. Nós fazemos um apelo aos países para que tratem com a devida urgência a questão da poluição plástica e possam encaminhar os consensos com mais velocidade”, disse o gerente de políticas públicas da WWF-Brasil, Michel Santos, que está em Ottawa. "Acreditamos que é possível. Nós temos visto posturas muito positivas nesse sentido, inclusive do Brasil, que chega com uma postura mais propositiva e proativa, fazendo jus a um país que vai receber o G20 este ano e a COP30 no ano que vem.”

    O plástico, um dos materiais mais baratos para o uso em diversas indústrias, é encontrado desde em utensílios da vida cotidiana até em produtos médicos, de higiene e na alimentação, que o leva à corrente sanguínea de seres humanos e animais. Na natureza, os microplásticos – as menores partículas em que eles podem ser produzidos ou transformados, inferiores a 5 milímetros – poluem o meio ambiente, em especial os oceanos e solos, e causam problemas de saúde aos seres vivos.

    Hoje, o mundo fabrica 460 milhões de toneladas de plásticos por ano – mas esse número pode triplicar até 2060, se nenhuma ação mais efetiva para reduzi-los for adotada no âmbito internacional. Com frequência, o uso do polímero virgem sai mais barato do que reciclar o resíduo.

    “Existem diversos tipos de plásticos e não estamos aqui demonizando e querendo proibir todos. Queremos trabalhar pelo banimento daqueles que não têm reciclabilidade, os chamados plásticos problemáticos, os de uso único”, ressalta Santos. "O plástico durável é muito utilizado e trouxe avanços à sociedade”, afirma.

    Apoio para os países em desenvolvimento

    O secretário nacional do Meio Ambiente Urbano e Qualidade Ambiental, Adalberto Maluf, representa o Ministério do Meio Ambiente nas reuniões. Ele avalia que o acordo estará bem encaminhado se, no Canadá, os países conseguirem chegar a definições claras sobre quais os tipos de plásticos devem ser limitados. Disso dependerá o grau de flexibilidade dos países resistentes a um tratado internacional ambicioso.

    “Mas a gente precisa ter um trabalho interseccional sobre financiamento também”, pondera o secretário.

    "Não adianta a gente falar de um acordo internacional e deixar para discutir a questão da capacitação, da transferência de tecnologia, financiamento privado e público, em especial para os países que têm maior dificuldade. A gente precisa de uma abordagem um pouco mais sistêmica, pensando como apoiar prefeituras pelo mundo a estruturarem bons sistemas de gestão, como reduzir a quantidade de embalagens, tirar as que não tem reciclabilidade ou têm um alto custo para a reciclagem”, explica Maluf.

    Brasil ainda não tem lei para restringir plásticos

    O Brasil é um ator importante neste universo – além de ser produtor de petróleo, a matéria-prima do produto, também é o quarto maior consumidor do mundo de plásticos. Entretanto, apenas uma parte insignificante disso, 1,3%, é reciclada, conforme levantamentos da WWF e da organização americana Center for Climate Integrity . O índice é bastante inferior à média global de reciclagem, que já é baixa, de somente 9%.

    Já a taxa de reciclagem pós-consumo – ou seja, o plástico descartado pelos consumidores, como as embalagens – chega a 25,6% no Brasil. O desempenho é positivo na comparação com outras economias em desenvolvimento, mas ainda é distante do percentual verificado nos países da União Europeia (40%).

    Sem reaproveitamento suficiente, cerca de 325 mil toneladas de plástico vão parar no mar a cada ano no Brasil, segundo a organização internacional Oceana, que combate o problema. Atualmente, dois projetos de lei tramitam no Congresso para limitar estes danos: o PL 2.524/2022 visa banir os plásticos de uso único, como sacolinhas e canudos, e o PL 1.874/2022 estimula a economia circular de forma mais vasta no país, incluindo a reciclagem.

    Consenso interno

    Entretanto, a questão da redução da produção permanece delicada, devido ao peso da indústria petroquímica na economia do país. Nesse sentido, está em discussão em Ottawa a adoção de metas mínimas de reciclabilidade dos plásticos fabricados e a diminuição dos aditivos tóxicos utilizados no processo.

    Já a cadeia da reciclagem, que emprega quase 1.000 catadores, por muito tempo se opunha à imposição de redução da produção, mas agora vê com bons olhos a evolução do debate social sobre o tema.

    “A gente conseguiu construir a nossa posição [internamente]. Nas últimas reuniões, os ministérios das Minas e Energia e da Indústria ainda tinham visões diferentes. Nesse meio tempo, tivemos mais de 10 reuniões conjuntas e construímos uma posição mais consensual, junto à Casa Civil, e viemos aqui para o mundo tenha um acordo”, indica Adalberto Maluf. "O mundo não pode esperar: precisamos de um tratado global que reduza a poluição plástica urgentemente – e não pode passar do fim desse ano”, defende o secretário.

  • Ao condenar a Suíça por inação climática, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos tomou uma decisão histórica: pela primeira vez, um país foi incriminado pela Justiça por não fazer o suficiente para combater as mudanças do clima. A sentença gera jurisprudência e aumenta a pressão sobre os 46 Estados membros do Conselho da Europa – mas também evidencia as limitações que existem hoje nas ações judiciais pela causa ambiental.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Desde 2021, a ONU reconhece como um dos direitos humanos o direito a um clima sadio. Agora, a corte europeia se tornou a primeira a aplicar esta determinação pela via judicial, depois de ser acionada por uma associação de idosas suíças.

    As “vovós suíças” alegaram que as mudanças do clima já atingem a sua saúde e as ondas de calor, mais frequentes devido ao aumento da temperatura do planeta, as colocam em risco de morte.

    Em uma breve entrevista coletiva ao deixar a corte em Estrasburgo, Anne Mahrer, copresidente da entidade, indicou que o próximo passo é pressionar para a Suíça aplicar a decisão. Entre as medidas, ela cita a redução do impacto ambiental da construção civil e dos transportes, o uso de energias fosseis e, “é claro, visar a atuação do sistema financeiro, que continua financiando essas indústrias”.

    “São 300 páginas onde está escrito muito claramente tudo que é preciso colocar em prática e que não é feito. Um país como a Suíça não ter orçamento climático, nem objetivos claros para chegar à neutralidade de carbono em 2050, é inacreditável”, disse Mahrer, ao enviado especial da RFI, Raphael Moran. “Um país rico, industrializado há tantas décadas, deveria ser exemplar – e não é. Quem paga mais caro são os países do sul, que menos contribuíram para a catástrofe”, complementou.

    Jovens portugueses perdem ação

    Na mesma audiência, o tribunal também analisou a ação movida por seis adolescentes e jovens portugueses – a diferença é que eles não visaram apenas o próprio país, e acusaram 32 Estados europeus de não evitarem o aquecimento do planeta. A corte evocou falhas processuais e decidiu que não poderia receber o caso antes que todos os recursos judiciais fossem esgotados primeiro em Portugal.

    “Obviamente, sentimos muito orgulho de todo o trabalho que foi feito durante estes anos – não apenas nosso, mas de todos os cientistas e advogados que estavam conosco. E todo esse trabalho não foi perdido”, afirmou uma das jovens, Catarina Mota, de 23 anos. “Não acaba aqui. Isso é apenas o começo.”

    Reiniciar o processo em Portugal levaria anos, observa o jurista Paulo Magalhães, do Centro de Investigação Interdisciplinar em Justiça, da Universidade do Porto. E, no final, o resultado provavelmente não estaria à altura do problema.

    “Todos os processos promovidos em uma jurisdição nacional estão condenados a perder porque o Estado vai se defender dizendo que ele não é o único responsável pelas alterações climáticas. Os jovens até podem ter reconhecido o seu direito a um clima estável e que estão sendo violados direitos humanos, que o direito ao clima estável não lhes está a ser assegurado. Mas os Estados sempre vão dizer que estão a fazer a sua parte e os outros é que não fazem as suas”, explica o pesquisador.

    Clima não tem fronteiras, alega especialista em direito ambiental internacional

    No caso português, as emissões de gases de efeito estufa do país são baixas, na comparação com os maiores emissores. Na última década, Portugal também se tornou um dos melhores exemplos de desenvolvimento das energias renováveis.

    “Mas isso resolve o problema dos jovens portugueses? Não”, disse Magalhães.

    O clima continua a se degradar – afinal, é o sistema climático da Terra que segue em direção ao colapso, não apenas o de um país. Disso decorre o “buraco jurídico” em que a proteção do planeta se encontra atualmente, argumenta o especialista em direito ambiental internacional. A Terra é considerada apenas como um território, e não como parte de um sistema conectado.

    “Os tribunais se esquecem que o próprio sistema judicial e jurídico não está preparado para lidar com um bem que não tem fronteiras. Uma coisa é nos dividirmos o nosso território, de forma abstrata. Fazemos umas linhas no mapa, um espaço aéreo, mas não conseguimos dividir a composição bioquímica da atmosfera ou dos oceanos, nem a circulação global atmosférica e oceânica”, explica o professor.

    “O direito não tem sido capaz de representar esta realidade funcional e dinâmica do nosso planeta”, constata o autor de O Condomínio da Terra: das Alterações Climáticas a uma Nova Concepção Jurídica do Planeta.

    Por isso, aponta o especialista, o combate à crise climática é “incompatível” com a organização jurídica que existe hoje. Ele alega que, primeiro, seria preciso determinar que o clima é um bem comum da humanidade – a exemplo do que foi feito com o fundo do mar. Depois, a criação de uma autoridade internacional específica, inclusive com tribunal próprio, passaria a se ocupar dessas causas.

    “Se nós aceitarmos que o planeta é também um sistema e que o sistema é comum, poderemos criar uma contabilidade entre todos, de quantos impactos positivos fazemos a este bem comum e quantos negativos, e então teremos um saldo. Sem isto, não haverá ação coletiva”, salienta Magalhães. “Sem isto, continuaremos pelo resto da vida a dizer que os do norte emitiram historicamente e têm mais responsabilidades, o que é verdade, e os do sul a dizer que têm coisas positivas para o sistema pelas quais os do norte não pagam.”

  • Há meses, ativistas franceses se revezam no alto de árvores ameaçadas por um projeto de construção de uma autoestrada no sudoeste do país. As ações de ocupação para a proteção de terrenos fazem parte da história do militantismo ecologista. Mas em uma era marcada pelo impacto das redes sociais e o aumento do quadro legal de proteção ambiental, essas mobilizações se tornaram um problema mais delicado para as autoridades.

    Na França, o ativista Thomas Brail, de 49 anos, virou o ícone da contestação das obras da rodovia A69, entre Toulouse e Castres. Cofundador do Grupo Nacional de Vigilância das Árvores, ele fez 40 dias de greve de fome na copa de um plátano, de onde só saiu para ser hospitalizado, quase inconsciente, em outubro de 2023.

    Na sequência, outros militantes assumiram o posto – o que lhes rendeu o apelido de “os esquilos da A69”. O movimento atraiu o apoio da ativista sueca Greta Thunberg, durante uma viagem ao país em fevereiro – mas não conseguiu paralisar o projeto.

    Quatro diferentes ações correm na justiça para impedir o avanço das obras, que os militantes acusam de atingir áreas agrícolas férteis, abalar a biodiversidade local e aumentar a artificialização dos solos. A última vitória ocorreu no fim de março, com o embargo do corte de novas árvores pelo Escritório Francês da Biodiversidade, até 1º de setembro.

    “É uma vitória bastante amarga porque foi necessário muito tempo e energia dos escaladores e escaladoras para protegerem essa zona. Essa forma de luta existe há bastante tempo, mas conseguimos uma boa repercussão na imprensa e criar um imaginário para as pessoas, afinal todo mundo gostava, mais ou menos, de subir nas árvores quando era pequeno”, disse Thomas Brail. “Ao fazer isso, também adotamos a não violência, já que ao subirmos nas árvores, não estamos em contato direto com as forças de ordem. Virou um quebra-cabeça para as autoridades, porque é difícil pegar pessoas que estão instaladas lá em cima sem colocá-las em perigo.”

    Privação de comida e sono

    Enquanto o projeto continua a contar com o apoio dos governantes locais – com o argumento de que a estrada vai dinamizar a região –, a reação das autoridades policiais foi enfrentar o movimento não pela força, mas pelo desgaste físico e mental. Desde 15 de fevereiro, o cerco policial aos manifestantes impedia-lhes acesso à comida e, durante à noite, também os privava de sono.

    Acionado, o relator especial da ONU para os Direitos Humanos dos Defensores do Meio Ambiente, Michel Forst, exigiu medidas de proteção dos ecologistas contrários à A69. Em entrevista à RFI, ele celebrou o embargo determinado pelo órgão ambiental francês. A decisão possibilitou que três “esquilos” pudessem descer das árvores por algumas horas – no solo, eles foram celebrados como heróis.

    “É uma boa notícia vermos que, finalmente, reconheceram que a luta deles era justificada. Não me pronuncio sobre o projeto em si, apenas sobre a maneira como os militantes eram tratados, que realmente não era algo aceitável em uma democracia”, comentou. “Privação de sono, água e comida pelas forças de ordem... Fiquei estupefato que as autoridades francesas ignorem as leis mais fundamentais do direito internacional. É uma resistência pacífica, não violenta; uma desobediência civil. Ela mostra que o combate dos militantes ecologistas e do clima, quando utilizam formas não convencionais de militantismo, pode funcionar”, analisou.

    Queda de braços por anos

    O cientista político Simon Persico, professor da Sciences Po Grenoble e pesquisador sobre o tema, salienta que ações práticas se misturam com a história da ecologia política, desde o fim dos anos 1960. Em vários casos no passado, as manifestações fizeram projetos se arrastarem por anos e até décadas, antes de serem abandonados.

    “De certa forma, é uma necessidade para a ecologia política, embora não seja o único repertório utilizado pelos ativistas. Em paralelo, eles fazem ações nos tribunais – vários deles, afinal temos o Direito Ambiental e os Direitos Humanos. Mas a escolha da ocupação, da presença física nos lugares a serem protegidos, de impedir fisicamente o desenvolvimento das obras, se mostra útil”, constata. “Se observamos a história dos grandes projetos de desenvolvimento de infraestruturas que ocupam terras, florestas, porções agrícolas, etc, vemos que houve muitas vitórias – às vezes leva tempo e temos uma impressão de estarmos em uma ‘never ending story', mas muitas vezes traz resultados.”

    O pesquisador relembra os casos recentes da construção de um aeroporto em Notre-Dame-des-Landes, abandonada em 2018, e do megacomplexo turístico Europa City, encerrado no ano seguinte. O projeto da estrada A69 já foi lançado e retomado várias vezes desde o fim dos anos 1990.

    “Não sei se podemos dizer que agora os dirigentes escutam mais, mas o que é certo é que os militantes ecologistas se mobilizam mais. Para os dirigentes e políticos, ficou mais delicado reagir, porque a partir do momento em que há uma presença física e que a confrontação se torna mais direta, pode gerar violências e até mortes”, ressaltou, ao recordar os protestos contra a construção da barragem de Sivens, no sudoeste da França, durante as quais um manifestante morreu.

    Neste contexto, a evolução do direito ambiental no mundo tende a proteger melhor os ativistas – como mostra a manifestação do relator especial da ONU, no caso dos “esquilos da A69”. Simon Persico ressalta que a reação dos Estados aos protestos ambientalistas também ilustra a natureza democrática e o respeito ao Estado de direito em um país.

    “Estamos falando de uma obrigação jurídica, já que a Carta do Meio Ambiente, na Constituição francesa desde 2005, impõe obrigações muito claras sobre o respeito aos princípios de precaução, por exemplo, e esse direito nem sempre é aplicado. O Estado deveria respeitar as regras que ele mesmo fixou”, afirmou Persico.

  • A cidade de Paris promete realizar os Jogos Olímpicos mais sustentáveis já vistos – e neste objetivo, a reciclagem é a palavra de ordem. Nada menos do que 100% do material esportivo, infraestruturas temporárias e mobiliário usados durante o evento serão reaproveitados, garante o comitê de organização.

    Esta ambiciosa meta leva em conta desde a preparação, com a escolha de fornecedores capazes de oferecer alternativas com pelo menos 15% de reciclagem, em vez de material novo, até o destino final das milhares de toneladas de equipamentos necessários para o maior evento esportivo do mundo. Foi privilegiado o aluguel de 90% das infraestruturas, em vez da aquisição.

    A empresa australiana RGS Events, especializa em equipamentos e mobília, é credenciada junto ao Comitê Olímpico Internacional (COI) desde os Jogos de Sydney, em 2000. O diretor de projetos Jon Parker explica que o grande desafio é associar a maior reciclagem com a melhor qualidade.

    “A cada Olimpíada, nós tentamos inovar mais, em termos de fornecimento sustentável. Paris 2024 é, sem nenhuma dúvida, o projeto que nos permitiu ir mais longe”, afirma. “Teremos produtos como sofás fabricados a partir de colhões velhos, mesinhas feitas de petecas de badminton recicladas, poofs com telas de paraquedas ou o magnífico banquinho de papelão, customizado com as cores de Paris 2024 e que pode aguentar até mais peso do que um banquinho normal”, revela.

    "Menos, melhor, mais tempo"

    A quatro meses do começo da Olimpíada, Georgina Grenon, diretora de Excelência Ambiental dos Jogos de Paris 2024, apresentou nesta semana um primeiro balanço da estratégia, focalizada no mantra “menos, melhor e por mais tempo”.

    “Nós estamos convencidos de que um outro modelo é possível. Nós achamos que os Jogos podem ser um acelerador da transformação ecológica, mas para isso é preciso que eles sejam um laboratório, no qual vamos tentar, inovar e fazer coisas em escalas que jamais foram feitas antes”, disse. “A articulação entre as nossas ambições e a maneira como escolhemos as compras foi essencial, da qual economia circular foi o principal pilar. Queremos criar novos padrões do setor de megaeventos esportivos”, projeta.

    Os números envolvidos na organização são difíceis até de visualizar, tamanha a magnitude do evento, para o qual são esperados 16 milhões de pessoas. Serão 600 mil móveis, 2 milhões de equipamentos esportivos, 16 mil colchões. Só bolas, são 800 mil. Para cada uma delas, foram feitas as perguntas: de onde vem? Com que material? O que será feito dela depois?

    Certificações ambientais sobre a procedência das matérias-primas foram exigidas, com prioridade para a produção local francesa. A equipe organizou uma inovadora metodologia para calcular a pegada de carbono de cada um dos equipamentos – e assim identificar onde ainda era possível dar um passo além.

    “Se a gente será capaz de colocar 6 milhões de produtos e equipamentos necessários para os Jogos, também precisamos, juntos, encontrar uma solução para dar uma segunda vida para eles”, aponta Caroline Louis, diretora de Economia Circular dos Jogos de Paris. “75% do peso da pegada de CO2 dos materiais estão relacionados às infraestruturas temporárias. Ou seja, o nosso maior desafio nesse objetivo da economia circular é que a segunda vida dessas infraestruturas fosse bem planejada.”

    Tudo para facilitar a reutilização

    Assim, as estruturas de sustentação do piso e arquibancadas serão de aço, melhor reaproveitado pela indústria do que a madeira. Os assentos são fabricados com restos de antigas cadeiras esportivas. Os mais de 33 mil metros quadrados de revestimentos de solo, sobre os quais se desenrolarão as mais diversas competições, foram feitos com as sobras da construção civil e não serão colados ao chão, para facilitar a retirada e o 100% de reaproveitamento após o evento.

    Na Vila Olímpica, as camas repetem e aperfeiçoam o modelo em papelão inaugurado na Olimpíada de Tóquio, em 2020. Os colchões utilizados pelos atletas e delegações serão doados para a escola de balé da Ópera de Paris, ao ministério da Defesa e à instituição de caridade Emaus. E os 35 mil pratos e 17 mil bandejas dos restaurantes olímpicos não terão nenhum logo inscrito, para facilitar a reutilização posterior em escolas e outras instituições francesas.

    Esta etapa de encontrar um destino para cada material ainda está em curso. “Parece fácil, mas é um desafio achar uma solução para exatamente tudo”, salienta Caroline Louis. Um dos materiais ainda sem desfecho são os adesivos que serão colados pelos diferentes locais de competições, que não são recicláveis.

    Apesar dos esforços, organizações ambientalistas como a Zero Waste lamentam que o comitê tenha abandonado o objetivo inicial de promover a primeira Olimpíada sem plásticos. A meta foi rebaixada a 50% menos plástico do que nos Jogos de Londres, há 12 anos.

  • Lideranças indígenas do Brasil realizam um giro pela Europa esta semana para sensibilizar a opinião pública e dirigentes europeus sobre a proteção do Cerrado. Os representantes da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e organizações ambientalistas ressaltam que apesar da regulamentação ambiental rigorosa em vigor na União Europeia, soja oriunda de áreas desmatadas no bioma continuam a desembarcar regularmente nas fronteiras do bloco.

    Nos últimos anos, os olhos do mundo e do Brasil se voltaram para o desmatamento na Amazônia e com o governo Lula, os números começaram enfim a cair. Mas enquanto isso, a devastação segue a pleno vapor no Cerrado. Dinamam Tuxá, da coordenação-executiva da APIB, integra a comitiva que foi a Amsterdã, Paris e Bruxelas para alertar sobre o problema e cobrar mais proteção dos europeus.

    “O desmatamento da Amazônia está migrando para outros biomas do Brasil, devido à moratória da Amazônia sobre a soja, a madeira. Infelizmente, não temos visto, tanto os governos estaduais quanto o governo federal, políticas incisivas para conter o desmatamento no Cerrado, nem programas ou financiamento para que haja algo parecido como o Fundo Amazônia”, disse, à RFI. “Não vemos isso com a mesma força para nenhum outro bioma brasileiro.”

    Nesta quinta a ONG internacional Mighty Earth promove em Paris uma conferência sobre o Cerrado, “bioma esquecido”, como definiu Boris Patentreger, o diretor da entidade. Ele lembra que a legislação europeia sobre desmatamento importado – quando os produtos que chegam ao continente são resultados de desmatamento em outros países externos ao bloco – se restringe à proteção de florestas cujas árvores são maiores do que 5 metros. Assim, apenas um quarto do Cerrado foi beneficiado pela medida, adotada em dezembro de 2022.

    “O nosso prisma europeu não considera o Cerrado uma floresta, embora todo o seu ecossistema lá seja igual ao de uma floresta – em termos de emissões de carbono, biodiversidade e presença de populações locais. Ele, então, ele é menos protegido, e hoje é impossível garantir que as suas florestas são mesmo protegidas”, alegou. “Nós queremos que todos os outros ecossistemas florestais sejam incluídos na regulamentação europeia, de modo a abranger todo o Cerrado.”

    Sônia Guajajara cobra 'responsabilidade' de europeus

    Por coincidência das agendas, a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, também está esta semana na Europa, onde cumpre agendas na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura), em Paris, no Vaticano e na FAO (agência da ONU para Alimentação e Agricultura), em Roma.

    Na capital francesa, em entrevista à RFI Brasil, ela lembrou que, como ativista, pressionou por anos o bloco europeu e as empresas a adotarem regras rígidas de controle ambiental dos produtos que importam do Brasil.

    “Agora, na condição de ministra, a gente continua entendendo que é importante que a Europa assuma também essa responsabilidade sobre a proteção ambiental, que possa garantir essa lei de rastreabilidade dos seus produtos, das empresas desses países, e que possa também fazer cumprir o Acordo de Paris, com a destinação de recursos anuais para proteger as florestas tropicais”, ressaltou a ministra. “A Europa tem essa responsabilidade, esse papel de ajudar a proteger, afinal de contas, temos aí uma região que muito colaborou para esse desmatamento global.”

    Dinamam Tuxá ressaltou que, enquanto o Ministério dos Povos Indígenas se estrutura, pouco mais de um ano após ser criado, o governo brasileiro "ainda não dá a devida atenção ao Cerrado". "Mas os desafios são muitos, por isso queremos colocar a comunidade europeia nele, afinal ela é o mercado consumidor da soja que está fomentando a destruição do Cerrado", frisou.

    Relatório sobre a soja

    A Mighty Earth, que costuma acompanhar o impacto da pecuária sobre a Amazônia, agora passa a divulgar relatórios sobre o avanço da soja nos dois biomas, foco do agronegócio brasileiro destinado à exportação. A região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) é a mais ameaçada.

    Apoiada por dados oficiais de satélites do sistema Deter e do Mapbiomas, mas também com equipes presenciais, a organização verificou que a usina da Bunge em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, recebe carregamentos de pelo menos uma fazenda que produz soja em áreas recentemente desmatadas. Da unidade, 40% das exportações partem para a França, alega Patentreger. A soja é utilizada principalmente para a alimentação animal, na agricultura.

    “Nesta fazenda, a gente pôde verificar casos de desmatamento que não respeitam a regulamentação europeia, porque constatamos novos alertas de devastação de florestas para o plantio. Vimos caminhões levando soja dessa fazenda para a usina da Bunge”, acusou. “No nosso relatório, pudemos provar que a França não está adequada à lei de combate ao desmatamento importado.”

    Neste contexto, os indígenas aproveitam a viagem à França, Holanda e Bélgica para se posicionar contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. O tratado é visto como mais uma ameaça para as comunidades locais, pela perspectiva de aumento do fluxo de exportações de commodities pelo Brasil. Atualmente, as negociações do texto encontram-se bloqueadas.

    O governo francês já declarou que não aprovará o texto enquanto as regras ambientais de produção agrícola não forem equivalentes nos dois blocos. O tema estará na pauta da viagem oficial que o presidente francês, Emmanuel Macron, fará ao Brasil no fim de março.

  • O aumento das áreas da Amazônia ameaçadas de atingir o "ponto de não retorno" de degradação preocupa cada vez mais a comunidade científica – mas ao redor do mundo, outras florestas também enfrentam condições de sobrevivência preocupantes. Na França, a mortalidade subiu 80% nos últimos 10 anos, segundo o último relatório nacional sobre o tema.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Mas o que leva uma floresta a morrer? “Tem as razões bióticas, biológicas, devido a doenças, insetos, fungos, que podem deixar as árvores doentes e torná-las empobrecidas, antes de morrerem. E temos as razões físicas, em especial o clima, que influencia o crescimento das árvores, o desenvolvimento delas. O clima pode ser muito nefasto e levá-las à morte”, resume a especialista em cobertura florestal Nathalie Derrière, chefe do Departamento de Resultados do Inventário do Instituto Nacional de Informação Geográfica e Florestal (IGN), autor do estudo.

    O papel das mudanças climáticas neste processo ainda é estudado pela ciência – hoje, não é possível afirmar que elas são as únicas responsáveis pelo maior adoecimento e morte das árvores verificados no país nos últimos 5 a 10 anos.

    As florestas europeias são, em sua maioria, temperadas, e a variedade de tipos de clima no continente é grande, podendo ser montanhoso, atlântico, mediterrâneo, continental ou até polar. Mas, de forma geral, o fenômeno de perda das florestas aumenta e se acelera, salienta Derrière.

    “Eu diria que, na Europa, nós estamos todos confrontados às mesmas problemáticas, embora com as especificidades locais, afinal as nossas florestas não são completamente iguais. Mas sim, florestas podem morrer, até quando nós cuidamos delas, como tem sido o caso aqui. Nós as preservamos, a superfície florestal tem aumentado, mas mesmo assim, vemos que elas estão empobrecendo”, explica. “Nem todo mundo é capaz de perceber isso: às vezes, temos a impressão de estarmos diante de uma árvore bem viva, porém por dentro ela está doente. Precisa ser como um médico de árvores para saber.”

    Sobrevivência em condições climáticas anormais

    Em regiões como o noroeste francês, por exemplo, a cobertura florestal disparou em 150 anos, graças à diminuição da pressão agrícola e ao êxodo rural. Ao mesmo tempo, no centro e leste do país, a repetição de verões mais quentes e secos, além de invernos também secos, têm prejudicado o crescimento das árvores em comparação com os registros a partir de 1850, de quando datam os primeiros dados do IGN. Com 31% do território ocupado por florestas, a França hoje tem a quarta maior cobertura da Europa.

    “As árvores no sul da França estão acostumadas a ter o calor no verão há muito tempo. A variação das temperaturas não foi tão forte quanto ocorreu no norte, onde as árvores não estão acostumadas a ter verões secos e com temperaturas acima de 40C”, disse a especialista francesa. “Foi isso que aconteceu nos últimos anos e, geneticamente, elas não estavam prontas e não puderam se adaptar a isso. É por isso que foi lá que tivemos mais estragos.”

    A especialista também explica que, ao ampliar os fluxos do comércio internacional, a globalização trouxe novas doenças para as florestas, que chegam pela madeira e as plantas importadas de outros continentes. “Contra o clima, não podemos fazer muito. Mas contra as doenças, sim, e tentamos limitar a entrada delas no nosso território”, indica.

    Ponto de não retorno da Amazônia

    Embora o contexto seja bem diferente, um processo semelhante ameaça a Amazônia, floresta tropical úmida cuja capacidade de resiliência está sendo testada pelas mudanças do clima e a degradação provocada pelo desmatamento. No último estudo sobre o tema, publicado na respeitada revista científica Nature, os pesquisadores Bernardo Flores e Marina Hirota, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), estimaram que entre 10% e 47% do bioma pode não resistir e se converter em outros tipos de ecossistemas nos próximos 25 anos. É o chamado de ponto de não retorno da floresta.

    “Podemos fazer uma analogia com como as pessoas morrem: de doenças, de velhice, de várias formas. Numa floresta como a Amazônia, que é quase um universo por si só, a gente pode pensar que cada indivíduo dela tem uma estratégia de vida e, dependendo do estresse que ela sofre, ou das doenças que ela pega, ela morre ou não”, indica Hirota.

    “Durante milhões de anos, no passado, a Amazônia se sustentou porque as mudanças não eram tão aceleradas como agora. Se nenhuma mudança nesse quadro acontecer, elas só vão se acelerar mais, de modo que até 2050, uma parte substancial da Amazônia talvez não consiga se adaptar a essas novas condições”, adverte.

    A biodiversidade grande é um dos fatores que fortalecem a floresta e aumenta a sua resistência diante das condições mais adversas. Mas estudos em curso têm identificado que a diversidade de espécies de árvores está menor do que já foi, inclusive em áreas de mata fechada. Foi assim que, ao longo dos séculos, as florestas se empobreceram na Europa.

    “Eu acho que de uma forma geral, esses ecossistemas florestais caminham para uma coisa semelhante ao que aconteceu na Europa – embora a diversidade seja reconhecidamente maior aqui, mas o caminho de empobrecimento pode ser o mesmo”, disse Hirota. “Esse é um fim que a gente poderia esperar para cá.”

  • O governo brasileiro busca associar a presidência do G20 em 2024 a avanços na agenda do financiamento climático para os países em desenvolvimento. A meta é encaminhar soluções sobre o tema para a próxima Cúpula das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP29), que acontece no Azerbaijão, no fim do ano, e cujo foco das negociações será o aporte de recursos para as nações mais pobres promoverem a transição ecológica.

    Nas vésperas da primeira série de reuniões dos ministros das Finanças do G20, um fórum de dois dias reuniu alguns dos maiores especialistas do mundo sobre o assunto, em São Paulo. Sandra Guzmán, fundadora do Climate Finance Group para a América Latina e o Caribe lembrou que a falta de subsídios leva a maioria dos países do grupo, em especial os latinoamericanos e africanos, a realizarem muito mais investimentos na indústria fóssil do que nas renováveis – inclusive o próprio Brasil.

    "O Brasil pode ter um papel importante, construindo pontes entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, e atuando para reconstruir a confiança no nível internacional que nós precisamos para encarar todos esses problemas”, frisou.

    Natalie Unterstell, especialista em financiamento do Instituto Talanoa, lembrou que um recente relatório da Comissão de Finanças da Convenção do Clima avaliou em pelo menos US$ 5,8 trilhões as necessidades dos países em desenvolvimento até 2030 – dos quais mais da metade deverão ser assegurados pelo setor privado e 25% por bancos multilaterais.

    "No entanto, a mobilização do financiamento privado tem sido bastante modesta, mundo afora. É fácil falar. Não tem sido fácil fazer”, apontou. “A economia convencional, a velha economia, mobiliza muito bem o capital e faz as coisas fluírem. Agora, a gente precisa tirar, deslocar esses recursos para a economia que a gente precisa que nasça, que aconteça, e que já está em curso”, incitou.

    Calendário do financiamento nas COPs

    Na COP29, os países se comprometerão com uma nova cifra anual de financiamento para os países em desenvolvimento – depois que os prometidos US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020 sequer foram cumpridos, pelos países ricos. O problema é que, desde então, estimativas atualizadas da ONU apontam que o valor necessário disparou: seria de pelo menos US$ 2,4 trilhões por ano.

    O sucesso desta discussão será fundamental para determinar o nível da ambição da conferência seguinte, a COP30 em Belém, quando novas promessas de redução de emissões serão submetidas, em uma espécie de atualização do Acordo de Paris.

    Enquanto isso, um dos focos da agenda brasileira do G20, a reforma das instituições multilaterais como o FMI e o Banco Mundial, converge com o objetivo de facilitar a arrecadação e entrega de recursos adicionais aos países que precisam do dinheiro para a transição energética.

    “Existe uma conversa muito importante sobre a reforma das instituições, do papel do FMI, do que pode ser a regulação do sistema financeiro e novas formas de mobilizar recursos e como canalizá-los. Essa conversa, apesar de ser mais ampla do que a questão do clima, é fundamental para os investimentos em clima porque os riscos e custos de se investir em mudança do clima são, muitas vezes, uma das barreiras para efetivar o financiamento”, salientou Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade.

    "Não será apenas uma questão de abrir um escritório de mudanças climáticas no FMI ou nos bancos de desenvolvimento. As instituições financeiras internacionais precisarão ser profundamente reformadas, com mudanças nos propósitos delas, que deveriam passar a ser proteger florestas, investir nas pessoas, criar empregos, e serem pensadas da base para o topo, e não do topo para a base”, complementou Guzmán.

    Parceria para financiar projetos no Brasil

    Durante os dois dias de Fórum Brasileiro de Finanças Climáticas, nesta segunda (26) e terça (27), foi anunciado um importante acordo para beneficiar a transição verde no Brasil. A Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) – que atua junto a quase 700 instituições financeiras do mundo para mobilizar recursos para o financiamento climático – se uniu ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ao Bloomberg Philanthropies para apoiar projetos no país.

    Mark Carney, enviado especial do secretário-geral da ONU para Ação e Finanças Climáticas e co-presidente da iniciativa, ressaltou que o financiamento é única maneira de dar escala a soluções que reduzam efetivamente as emissões de gases de efeito estufa, em vez de alternativas menos eficientes no combate à crise climática como o comércio de créditos de carbono.

    “Sim, nós podemos precificar o carbono e termos um mercado de CO2. E sim, o Brasil é um líder na bioeconomia. Mas tudo que a natureza nos dá não tem um preço”, disse. "No fim das contas, os mercados não têm valor, mas as pessoas têm, e muito do que está acontecendo com a natureza é resultado das nossas decisões. As pessoas estão no centro dessa transição climática.”

  • O “gelo mais puro que você já provou”, direto de icebergs da Groenlândia, agora pode ser degustado em um drink em Dubai, a mais de 8 mil quilômetros de distância – e em pleno deserto. Uma empresa do país no Ártico exporta o produto, em uma iniciativa que provocou a revolta de defensores do planeta.

    O gelo, já desenvencilhado dos icebergs formados há centenas de milhares de anos, é recolhido do oceano pela empresa Artic Ice, que o armazena em compartimentos refrigerados e o transporta de barco até os Emirados Árabes Unidos. Em Dubai, a iguaria é encontrada em drinks em bares e hotéis de luxo, e também pode ser apresentada como uma atração à parte, na decoração.

    “Já sabemos que os ricos são os causadores da maior parte das emissões de CO₂. O que estamos falando aqui é pegar gelo que está a perigo na Groenlândia, justamente por causa do aquecimento global, e levar esse gelo até Dubai para ser consumido pela elite do mundo”, disse a glacióloga Heidi Sevestre, do Programa Internacional de Monitoramento do Ártico, em entrevista a Isabelle Martinetti, da redação em inglês da RFI.

    O uso do gelo, explica Sevestre, faz parte das tradições dos povos locais e ele já é explorado por diversas pequenas e médias empresas. A especialista confirma que este gelo demora mais a derreter e resulta em uma das águas mais puras que existem no mundo, com frequência recompensadas com prêmios de ‘sommeliers’ de água mineral.

    “Na Groenlândia, usar o gelo das calotas glaciais, dos icebergs, é uma coisa bem tradicional. É cultural, na verdade: é uma fonte de água pura. Mas é claro que enviar este gelo longe, para Dubai, nos Emirados, só pode ser prejudicial ao meio ambiente, mesmo que a empresa diga se esforçar para baixar ao máximo a pegada de carbono dessa operação”, afirma. “Tenho a impressão de que eles estão subestimando o impacto negativo da atividade deles para o meio ambiente.”

    Emissões desnecessárias

    Sevestre avalia que não é necessariamente o fato de recuperar este gelo que gera um impacto ambiental, mas sim a mensagem que a atividade transmite, em contrassenso com os esforços que todos os setores estão obrigados a fazer para cortar as suas emissões de gases de efeito estufa. No caso da Artic Ice, essas emissões vêm do transporte, mas também da criação de uma necessidade de consumo “absolutamente dispensável”, na visão da glacióloga.

    “O impacto negativo ocorre porque gera emissões simplesmente desnecessárias. Acho importante compreendermos que hoje estamos tentando tudo que podemos, e espero que seja verdade, para reduzirmos a nossa pegada de carbono”, aponta. “Neste sentido, eu acredito que devemos seguir pelo caminho do que é suficiente –e não precisamos de mais cubos de gelo da Groenlândia em Dubai.”

    Nas redes sociais, a iniciativa da Artic Ice gerou revolta, com internautas denunciando a “pior ideia do século” e afirmando que “o projeto dá nojo”. O cofundador da empresa Malik V Rasmussen contou ao jornal The Guardian que chegou a receber ameaças de morte dos usuários mais radicais.

    Derretimento das geleiras é causado pela indústria fóssil

    A Artic Ice alega que, para o transporte, utiliza navios que, de qualquer forma, voltariam vazios para Dubai, e também investe em estocagem de carbono para compensar o impacto das exportações.

    Heidi Sevestre salienta que, apesar da sinalização negativa que um projeto como este indica, a produção e o consumo de combustíveis fósseis são a maior ameaça para as geleiras nos polos.

    “Não devemos esquecer que são as companhias de combustíveis fósseis que produzem emissões de gases de efeito estufa gigantescas. Um estudo publicado na revista Nature revela que as calotas glaciais na Groenlândia estão perdendo 30 milhões de toneladas de gelo por hora hoje em dia, devido à indústria de combustíveis fósseis”, salienta. “Não é por causa dessas pequenas empresas de lá. Não devemos nos enganar de alvo.”

  • A cidade de Paris se prepara para triplicar o valor do estacionamento nas vias públicas dos carros tipo SUV, acusados de, entre outros problemas, causarem um maior impacto ambiental do que os veículos de passeio convencionais. O balanço superior de emissões de gases de efeito estufa varia conforme o modelo, mas o consumo de energia pode até ser mais intenso que o de um trajeto de avião.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), um 4x4 emite em média 20% a mais do que um carro comum médio. As principais razões para explicar as variações são o tipo de motor, a aerodinâmica – menos favorável – e o peso do automóvel. Assim, os SUVs costumam consumir pelo menos 8% mais combustível, ao pesarem ao menos 300 quilos a mais do que um carro tipo sedã. Mas essa diferença pode ser bem maior, se comparada com um carro popular.

    Enquanto os modelos vendidos na Europa têm em média 1,5 tonelada, os americanos podem atingir 2,7 toneladas, ou seja, mais do que o dobro do que um veículo convencional. O espaço interno e porta-malas mais volumosos, além da maior sensação de segurança, fizeram com que nada menos do que 48% dos novos carros vendidos no mundo em 2023 tenham sido SUVs, sem distinção entre os modelos.

    “Eles sempre serão mais poluentes na medida em que o aumento de peso é aproximadamente proporcional ao aumento de consumo de combustível, ou de redução de rendimento energético. Uma SUV certamente fará menos quilômetros por litro do que um veículo compacto”, aponta Márcio de Almeida D’Agosto, professor de engenharia dos transportes na UFRJ e fundador do Instituto Brasileiro de Transporte Sustentável.

    O sucesso crescente desses carros nos meios urbanos levou a uma disparada das emissões dos veículos individuais, ao ponto de anular os resultados positivos gerados pela eletrificação progressiva das frotas nas cidades na última década, afirma um estudo da organização ambientalista Greenpeace.

    Impacto ambiental de andar sozinho de SUV

    Os SUVs e seus modelos mais compactos crossover já representam 25% dos carros em circulação no mundo – mas geraram mais de 31% das emissões dos automóveis, afirma a AIE. A alta foi a segunda maior razão do aumento dos despejos totais de CO2 em 2022, atrás apenas da produção de energia, porém à frente dos transportes aéreo e marítimo juntos.

    “Se nós considerarmos o perfil dos SUVs vendidos no Brasil em 2022, em média eles têm um consumo de 1,3 MJ (megajoule) de energia por quilômetro. Uma viagem de avião doméstico no Brasil consome em média 0,9 MJ por passageiro, por quilômetro”, resume Márcio D’Agosto, que foi um dos autores líderes do capítulo sobre esse assunto no quinto relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

    “Isso significa que uma viagem de SUV pode consumir mais energia do que uma de avião, porque você está trabalhando com um veículo pesado que carrega em geral apenas uma pessoa dentro. Brinco que fazemos viagens aéreas urbanas: ao pegar os seus SUVs, as pessoas estão fazendo viagens de avião dentro da cidade”, afirma, baseado em dados do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV) e do Inventário de Emissões do Transporte Aéreo, da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil).

    O relatório da AIE indicou, ainda, que o aumento da eletrificação dos SUVs – que corresponderam a mais da metade do total de vendas de carros elétricos no mundo – não impediu que essa categoria despejasse um recorde de 1 bilhão de toneladas de CO2 na atmosfera em 2022. Isso significa o dobro do que o Brasil emite no período de em um ano, ou o equivalente a França e Alemanha juntos.

    O Conselho Superior para o Clima, organismo independente que orienta as políticas ambientais do governo francês, avalia que estes carros são simplesmente “incompatíveis” com a transição ecológica.

    Eletrificação de modelos não resolve

    Outro problema da eletrificação destes modelos é que, por serem maiores e mais pesados, eles exigem mais quantidades de metais raros na fabricação – matérias-primas cruciais para a transição energética das economias, assinala Jean Burkard, da organização WWF.

    “Precisamos dos veículos elétricos para a transição ecológica, mas carros que sejam o mais leve possível. As SUVs elétricas continuam sendo mais pesadas, logo precisam de mais metais raros como o lítio, o cobalto, o níquel ou o cobre”, observa. “Essa forte demanda pode provocar ruptura de matérias-primas para outras necessidades”, disse Burkard.

    “E depois, no fim de vida desse veículo, você provavelmente terá muito mais trabalho, se é que vai conseguir, para reintroduzi-lo no sistema produtivo, na circularidade econômica como nós queremos para termos sustentabilidade”, complementa D’Agosto.

    Para frear esse fenômeno, entidades como a Possible, do Reino Unido, defendem que o peso passe a ser um critério na hora de taxar a venda dos veículos. Na França, os carros com mais de 1,6 toneladas a combustível térmico já estão sujeitos à medida – ou seja, 9% dos novos registros, calculou a consultoria AAA Data, a pedido do jornal econômico Les Echos. Noruega e Irlanda também adotam medidas semelhantes.

  • A revolta de agricultores em vários países europeus, somada a um contexto político menos favorável ao avanço das políticas ambientais, pode pesar em decisões importantes que a União Europeia (UE) se prepara para tomar: o bloco deve atualizar os compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa no horizonte de 2040.

    Lúcia Müzell, da RFI Brasil em Paris

    A ambição europeia para 2030 está inscrita na Lei do Clima e o Pacto Verde Europeu desde 2021, que impõem a redução de pelo menos 55% das emissões, em relação aos níveis registrados em 1990. A Agência Europeia de Meio Ambiente prevê que, se o ritmo atual for mantido, o bloco “muito provavelmente” vai atingir o objetivo, embora de maneira desigual – a parte de emissões da agricultura permanece estável, ao contrário da queda registrada na indústria, por exemplo.

    É por isso que a Comissão Europeia encabeçou uma discussão para fixar as metas para os 10 anos seguintes, de modo a atingir à neutralidade de carbono em 2050. A presidente da comissão, Ursula von der Leyen, defende 90% de diminuição dos gases até 2040, conforme a recomendação do Conselho Científico do Clima, que orienta a UE sobre o tema.

    Se aprovada pelos 27 países do bloco, a meta se transformará em lei – que deverá exigir esforços ainda maiores para a sua implementação futura, a serem decididos para o período 2031-2040. No delicado contexto atual, nada disso está garantido.

    "Eu, como cientista que trabalha há muito tempo sobre essas questões, vejo o contrário: não estamos indo tão rápido quanto deveríamos, se quisermos respeitar o Acordo de Paris, um tratado internacional que é obrigatório para os países. A maneira como a população percebe essa obrigação é uma outra questão”, afirma Catherine Aubertin, diretora de pesquisas no Instituto de Pesquisas pelo Desenvolvimento e especialista em economia ambiental e negociações climáticas.

    “Para muitos, todas essas normas instauradas para cumprirmos os nossos objetivos são vistas como um peso, mas elas deveriam ser compreendidas como normas de proteção. Acho que houve um problema de comunicação", avalia.

    Agricultores reagem

    Limitação do uso de combustíveis poluentes, como o diesel, proibição de agrotóxicos que afetam a biodiversidade e a saúde humana, limitação da irrigação em nome da segurança alimentar e sanitária nos períodos de seca – cada vez mais intensos e frequentes – são algumas das medidas percebidas como imposições vindas da União Europeia. Setores produtivos, como os agricultores agora, alegam que decisões como essas asfixiam suas atividades e atingem a competitividade nos mercados internacionais.

    "No caso, da França, a Federação Nacional dos Sindicatos Agrícolas continua com a ideia de produzir cada vez mais, graças a uma agricultura intensiva que abala os ecossistemas, a água, o ar e a saúde dos próprios agricultores. É um modelo que nem deveríamos mais estar apoiando, já que os relatórios de organismos como o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], o IPBES [Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos] e a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura] nos advertem que precisamos é produzir menos”, salienta Aubertin.

    Um dos aspectos denunciados pelos agricultores nas estradas de países como França, Alemanha ou Bélgica é a assinatura de acordos comerciais com nações externas ao bloco, como o negociado com o Mercosul, mas também com o Chile, o Vietnã e o Quênia. Esses tratados, que beneficiam a indústria mas prejudicam a agricultura europeia, também são criticados pelos ecologistas e por partidos de extrema direita, contrários à globalização.

    Contexto político menos favorável

    O pesquisador Nicolas Berghmans, à frente do departamento de Europa do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais, em Paris, salienta que o atual movimento de produtores rurais poderá influenciar os eleitores nas próximas eleições parlamentares europeias, em junho – e, consequentemente, no andamento da próxima legislatura sob o ponto de vista ambiental.

    "Algumas alas políticas, em especial a extrema direita, sempre se opuseram à agenda do Pacto Verde – não apenas como uma posição política, mas também pelo voto no Parlamento Europeu”, constata o pesquisador, ouvido pela RFI. "Também temos visto uma certa mudança de discurso que atinge a direita e a centro-direita europeias, ligada ao ritmo da transição. Eles querem que a gente não avance nem tão rápido, nem tão fortemente. Alguns políticos evocaram até uma ‘pausa regulamentar’ da transição ambiental”, frisa.

    O presidente da Comissão de Meio Ambiente do Parlamento Europeu, o ecologista Pascal Canfin, alerta que o futuro do Pacto Verde é um dos grandes desafios da próxima eleição e que, sem apoio político, “ele vai parar”.

    Além dos populistas e, cada vez mais, os conservadores, também à esquerda enfraquece a defesa deliberada do tratado, de olho nas pesquisas de opinião. Na última eleição, em 2019, defendê-lo era uma vantagem. Hoje, não mais.

    "A Europa poderia avançar mais devagar, mas o tempo está passando e não vamos esquecer que se parássemos hoje de enviar gases de efeito estufa para a atmosfera, a concentração de CO2 que já existe começaria a diminuir a longuíssimo prazo. Nós teríamos que parar imediatamente de encher um copo que está à beira de transbordar, e a agricultura convencional é uma grande fonte de emissões”, complementa Catherine Aubertin, lembrando que dois terços da superfície agrícola europeia estão ocupadas pela produção de alimentos de origem animal.